terça-feira, 23 de agosto de 2016

Arte e Ciência. Cientistas em workshop internacional em Viseu


Informação recebida dos organizadores do Art Lab 2016 em Viseu:

Cientistas nacionais e internacionais juntam-se em Viseu, na escola Alves Martins, para discutir o futuro da humanidade em temas como envelhecimento, a falta de comida e de água potável. Rene Oettkerli, Udo Schnitzbauer, Tiago Boaventura, Steven Brown, Carlos Fiolhais e Carlos Duarte são algumas das presenças já confirmadas para o workshop “Art Lab 2016”, Science Xplore, que irá decorrer entre 5 a 10 de setembro de 2106, na Escola Secundária Alves Martins, em Viseu.

 O tema para o workshop deste ano designa-se por “Back to the future” (De volta ao Futuro), decorre em inglês e estará disponível para alunos entre os 12 e os 17 anos que irão trabalhar em conjunto com os cientistas e palestrantes presentes para solucionar problemas de 2050: envelhecimento, a falta de comida e de água potável. As inscrições puderam ser feitas no site: www.sciencexplore.org  até dia 15 de agosto. Houve 20 vagas disponíveis.

 O programa para os cinco dias inclui atividades das 9h00 às 12h30 e projetos experimentais de robótica, tintas fotossensíveis, animação em stop-motion, química verde e linguagem das redes sociais, das 14h00 às 17h30. O encontro tem como objetivo o de criar “relações académicas entre artistas e cientistas das diversas nacionalidades”. A Science Xplore é uma recente associação sem fins lucrativos que “pretende estimular o gosto pelas ciências e pela arte, recorrendo a abordagens assentes no saber fazer e no saber pensar”. O workshop de robótica da Science Xplore conta com a colaboração do departamento de engenharia eletrotécnica, do Instituto Politécnico de Viseu.

Divulgação da Física por Eduardo Martinho


Eduardo Martinho acaba de publicar a compilação do conjunto de 29 artigos publicados no jornal O MIRANTE (agora em versão melhorada):


domingo, 21 de agosto de 2016

O8/03/08 - Memórias da Grande Marcha dos Professores


O título "08/03/08" de um livro que a Oficina do Livro publicou 2016 é uma data mas o subtítulo esclarece, para quem não se lembra da data, o que se passou nesse dia: a “Grande Marcha dos Professores”. Tratou-se de uma manifestação de quase cem mil professores na Baixa de Lisboa, do Marquês de Pombal à Praça do Comércio, em protesto contra a política educativa de  Maria de Lurdes Rodriguesa, ministra da Educação de José Sócrates. Segundo a badana foi “a maior manifestação de uma classe profissional em tempos de democracia”. Pela primeira vez  foram usados em proifusão os meios digitais para a mobilização das “hostes”: blogues, emails, SMS.

O autor, Paulo Guinote, é um bem conhecido professor do ensino básico.  Era na altura o responsável pelo blogue “A Educação do meu umbigo”, o blogue mais lido sobre educação. Não só usou o seu blogue para a mobilização como esteve lá, pelo que o seu relato é em primeiríssima mão. Como o autor diz logo no início: “Não é uma narrativa neutra (...) É um olhar para um acontecimento a partir de dentro para quem esteve no meio dele, com convicção.” Agora consultou os registos da Internet da época, os recortes de imprensa, fez entrevistas a professores (55 questionários recolhidos), jornalistas e até, sob anonimato, a um funcionário do ministério. Guinote conseguiu assim uma bem documentada memória do que se passou nesse dia e nos tempos que o precederam. Em causa estava o novo estatuto dos docente e a avaliação do desempenho docente. Lembro-me bem desses tempos conturbados: o mal estar nas escolas atingiu proporções extraordinárias. O tom era muito áspero de parte a parte. O escritor e cronista Manuel António Pina (entretanto já falecido) perguntava no JN: “Porquê tanto ódio, tanto desprezo, tanto ressentimento contra a figura do professor?”

Nas ruas de Lisboa, proveniente de todo o país, transbordou a indignação colectiva. Havia uma plataforma sindical (os sindicalistas principais, incluindo Mário Nogueira, aparecem nas ilustrações do livro à frente da manif) mas os protestos excediam largamente o enquadramento sindical. A ideia dos manifestantes era apear a ministra e mesmo, se possível, o governo, apesar de muitos deles serem da área do PS. Mas o que ficou afinal do dia 08-03-08? Os professores ficaram com uma mão quase vazia. A 12 de Abril era celebrado um memorando de entendimento entre o ministério e a plataforma sindical, em que a ministra, a troco de algumas cedências, esvaziava os protestos. Guinote lembra que muitos professores não se sentiram representados pelo memorando assinado pelos sindicatos. Um blogue de um professor apresentava numa fotomontagem a ministra como uma bruxa a dar uma maçã envenenada. “Mal-empregada manifestação”, comentava um outro professor, denotando o tom geral de desilusão.

Em epílogo Guinote revela que, em Julho de 2019, esteve na Livraria Almedina do Saldanha, na apresentação de um livro da ex-ministra (já tinha sido substituída por Isabel Alçada) na qual ela deixava para memória futura a sua versão do que se passou na sua pasta. Viu, por isso, o cortejo de políticos que sempre acompanham os seus correligionários que lançam livros. Comprou um exemplar e verificou que a ex-governante omitia por completo a grande contestação que tinha sofrido. Escreve ele:
“Foi uma espécie de encerramento da um ciclo da minha vida pessoal e profissional. (...) Porque confirmei muito do que tinha entrevisto à distância em 2008 e 2009: um enorme consenso da maioria do arco da governabilidade e suas extensões académicas em defender Maria de Lurdes Rodrigues e a sua política de 'reformas' em confronto aberto com os professores. A 'firmeza' elevada a qualidade em si mesma, quase que independentemente do mérito e da forma demagógica como se enunciavam as 'causas' ”.
Foi há oito anos e já houve a troika depois disso, que também não foi nada simpática para os professores, que no final ficaram muito desiludidos com Nuno Crato. Hoje, nas escolas, resta ainda desse tempo uma atmosfera de desilusão pela forma como os professores eram e continuam a ser tratados pelos políticos. Está em vigor uma “avaliação” de professores mas é uma burocracia de faz-de-conta, em que todos perdem tempo, que serve apenas para salvar as aparências. O livro não pergunta, dada a data em que foi escrito, mas pergunto eu: não é irónico ver hoje, desfeito o antigo “arco da governabilidade”, juntos pela geringonça quem esteve em 08/8/08 dos dois lados da barricada?

A PROFECIA


Recentemente. tive oportunidade de apresentar no belo Café Santa Cruz em Coimbra, com casa cheia, o livro de António Costeira, "A Profecia", Edições Vieira da Silva, 2016) do qual saiu recentemente segunda edição).

Devo começar por dizer que não sou um  grande leitor e, portanto, conhecedor do género fantástico, no qual se insere o primeiro livro de António Costeira (parabéns, nunca é tarde para começar!). Isto apesar de saber que é um dos géneros literários mais apreciados em todo o mundo, sendo por isso um dos que mais vende. Os clássicos são (consulto a Wikipedia: a tabela indica autores e os números mínimo e máximo da estimativa de vendas em todo o mundo de todos os seus livros)

C. S. Lewis (1898-1963)100 million200 millionEnglishThe Chronicles of Narnia, fantasy, popular theology
J. R. R. Tolkien (1892-1973)200 million250 millionEnglishThe Lord of the RingsThe Hobbit, classical fantasy

Mas há também dois "modernos clássicos":
George R. Martin (n. 1948)50 million60 millionEnglishA Song of Ice and Fire
J. K. Rowling (n. 1965)350 million450 millionEnglish
Harry Potter

O livro A Profecia, de subtítulo Naur'can, inscreve-se nessa tradição, sendo imediatamente perceptível que o autor conhece os clássicos. A linguagem de Costeira, filho de uma professora primária que deixou no seu espólio um conto infantil não publicado, é simples, mas a simplicidade do discurso é próprio destas obras com enredos muito complexos. Há muitos personagens e quer o espaço quer o tempo são muito abrangentes. O autor apresenta no início da obra um índice de personagens principais e a sua descrição dá logo a ideia de um cenário fantástico (aqui a ordem não é alfabética): 

 "Davdak: Mago, meio-irmão de de Astrid que com ela estudou pacificamente o livro das Runas. Na sua ambição de poder, quis o livro só para si, provocando com isso a fúria dos deuses e a destruição de Naur'can, tornando-se inimigo do povo elfo. Mantém a intenção de recuperar o Livro. 

 Astrid: Maga Suprema de Alagosadhar e irmã de Riclamin. Recebeu deste os Ovos de Dragão, distribui-os pelos povos e iniciou a dinastia dos Guardiões. Dedicou.-se ao estudo da profecia e lançou as bases para o seu início na Aldeia Perdida, para onde se retirou.

 Riclamin Stark: Irmão mais novo de Astrid e meio irmão de Davdak, embora o não soubesse. Guiardião da Nação Elfa, foi responsável pela vinda dos Ovos de Dragão e pela recuperação do Livro das Runas. Travou uma batalha com Davdak no deserto pela posse do Livro e veio a morrer em consequência dos ferimentos.

 Jankahn: Maga, filha de Astrid, e que ficou no seu lugar como professora de magia em Alfheinstad. Era a guardiã secreta do Livro das Runas e foi através dela que Na'Akano se revelou. 

 Na'Akano: Filho adotivo de Gilvo e pupilo de Astrid, foi para ele que o Livro das Runas se abriu, após longos anos de estudo com Jankhan."

Para facilitar a orientação espacial, o autor coloca também logo a abrir o livro um mapa da região onde se situa a acção: o fantástico reino de Alagosadhar, cuja antiga capital (a cidade foi destruída por um cataclismo) é precisamente o nome do subtítulo Naur'can. Nesse mapa, uma penínsulas montanhosa banhada por dois mares, encontramos nomes estrangeiros como Naur'can, Smênae e Alfheistad, mas também nomes portugueses como Pedra do Urso, Castelo de Vide e Forte Salvaterra (há também uma Vila Costeira, que joga com o nome do autor). Há ainda no início do livro uma explicação dos caracteres runas,a tradição cultural dos vikings, que foram usados no cirth, a linguagem mítica criada por Tolkien, e que aparecem em vários trechos do livro.

 O leitor só pela apresentação dos personagens já deve ter uma ideia do que encontrará no enredo: livros com segredos, magos poderosos, ovos de dragão, grandes ameaças, lutas terríveis. Mas o mais interessante, na minha opinião, do livro é que ele, enquadrando-se na chamada fantasia medieval (com clara influência das mitologias celtas, germânicos e escandinavos, povoados de elfos e outros seres de fantasia), o livro é também de ficção científica. Uma parte da acção passa-se na actualidade: Carlos, um graduado em "engenharia física e química" da Universidade de Coimbra, autor de uma tese de doutoramento sobre fusão fria (fantasia, claro), é abordado na cantina universitária por dois estranhos, que o convidam a instalar uma central num longínquo país nórdico. O leitor imagina já que essa central está localizada na paisagem fantástica do mapa. O autor faz, na escrita, um vaivém entre os tempos antigos e modernos. A certa altura personagens modernos entram no interior da terra e encontram...

 Deixo, um excerto que descreve uma viagem de Na'A (quer dizer Na'Akano) num deserto. As constelações não são as nossas, o que nos remete para mundos extraterrestres apesar dos nomes portugueses de algumas terras:

 "O MAPA DAS ESTRELAS sempre fascinara Na’A, mas agora no deserto elas pareciam ter um brilho diferente. Ou talvez agora olhasse para elas sob uma nova perspetiva. As estrelas não estão ali por capricho dos deuses, dissera-lhe uma vez Astrid, fazem parte da criação e, entre outras coisas, ensinam-nos o caminho quando não há outras referências, como por exemplo no deserto.

 E era agora o caso. Depois de terem respondido ao apelo do desesperado Edgard, Drellïas tinha aceitado o repto que o Duque de Unhais lhe lançara para o ajudar como seu novo comandante militar, e ele seguira o seu caminho. 

 As esparsas e amarelas luzes da cidade há muito tinham ficado para trás, e as noturnas areias frias daquele deserto deslizavam inertes sob os cascos do seu cavalo, enquanto meditava nestes assuntos. Quando entrara no extenso areal, passando por entre as últimas acácias espinhosas e arbustos pardos que marcavam o início daquela vegetação xerófila do deserto, envolvera-se na quente manta que trouxera e procurara aquela estrela que deveria manter sempre à sua direita, ligeiramente a fugir na direção da sua orelha. Não sabia porquê, mas era a única estrela que se mantinha fixa, sempre no mesmo sítio enquanto as outras passavam por ela. Era a Estrela da Mansão, aquela onde os espíritos dos antepassados repousavam e ajudavam os viajantes em busca do seu destino. O rendilhado do céu era tecido de miríades de estrelas, algumas formando formas bizarras sem sentido, mas outras, como a constelação do Auroque ou do Urso, espelhavam no céu o modelo que lhes dera nome. Havia muitas, mas a constelação do Ceptro, que o olhava de frente, era neste momento a mais importante.

 Em resumo, uma leitura fantástica... A acção fica um pouco em suspenso, pelo que aposto que vai haver continuação. 

TOP TEN DE LIVROS DE AUTORES DE FICÇÂO CIENTÍFICA E FANTÁSTICA NA BIBLIOTECA PÚBLICA DO PORTO

Nova contribuição do bibliotecário da Biblioteca Pública Municipal do Porto (BPMP), Adriano Simões da Silva:

TOP AUTORES DE FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTÀSTICA
Quais os mais conhecidos e vendáveis autores de ficção científica? Procurámos a resposta no catálogo online da Biblioteca Pública Municipal do Porto, disponível em http:\\bibliotecas.cm-porto.pt, sendo este o resultado:

1º VERNE, Jules… 361 livros ou registos (o 1º grande nome do género)
2º BRADLEY, Marion Zimmer… 128 (famosa pelas “Brumas de Avalon”)
3º ROWLING, J.K… 109 (famosa pelo “Harry Potter”, escrito no Porto)
4º TOLKIEN, J.R.R… 64 (famoso pelo “Senhor dos Anéis”)
5º LEWIS, C.S… 62 (famoso pelas “Crónicas de Nárnia”)
6º ASIMOV, Isaac… 60 (autor das “Três Leis da Robótica”, etc., tendo previsto micro-ondas, fibra-óptica, internet, microchips, televisões planas, etc.)
7º WELLS, H. G… 42 (famoso pelo pânico da “Guerra dos Mundos”)
8º CLARKE, Arthur C… 39 (um dos três pais da FC, inventor, etc.)
DICK, Philip K… 39 (na origem do filme “Blade Runner”, etc.)
10º HEINLEIN, Robert A… 28 (autor de “Um Estranho numa Terra Estranha”, etc.)
11º POHL, Frederick + SILVERBERG, Robert.. 27

N.B.: a expressiva vitória de Júlio Verne resulta de uma antiga exposição na BPMP.


Este TOP é o resultado de 15 minutos de trabalho, porque nada é mais rápido e fácil do que corrigir autores, uma vez que o manual (as “Regras Portuguesas de Catalogação”) contém apenas 8 páginas a saber sobre este assunto…

O RÓMULO NO CORREIO DA MANHÃ

O Correio da Manhã de domingo passado, na sua revista, apresenta o Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra:

É a universidade mais antiga do país e uma das mais antigas do Mundo. Criada no reinado de D. Dinis I, a Universidade de Coimbra é uma referência no ensino universitário e uma atração turística pela riqueza histórica, cultural e científica. Aqui funciona um Centro Ciência Viva diferente de todos os outros. 

O centro Rómulo de Carvalho é uma biblioteca de divulgação de ciência, em homenagem ao "grande professor, divulgador, poeta, alguém que relacionou a ciência com o Mundo", diz Carlos Fiolhais, diretor do centro. Funciona há cinco anos num espaço cedido pelo Departamento de Física. É de livre acesso e qualquer pessoa pode requisitar livros num "sítio onde a curiosidade sai daqui completamente morta", brinca Carlos Fiolhais. Há 25 mil obras com o denominador comum da ciência e ainda CD e DVD. Muitas obras foram oferecidas por particulares e o diretor do centro faz o convite: 
"Quem tiver livros que queira partilhar com a comunidade, o Rómulo, na Universidade de Coimbra está pronto a aceitá-los". 
Todos os anos por ali passam 8 mil pessoas.

Ler em: http://www.cmjornal.pt/mais-cm/domingo/detalhe/25-mil-livros-sobre-ciencia

NOS PALCOS DA CIÊNCIA


Sebastião Formosinho é professor jubilado de Química da Universidade de Coimbra. Tive recentemente o prazer de apresentar no Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra o seu livro mais recente Nos Palcos da Ciência: uma apreciação estética da heterodoxia científica. O livro é a versão alargada da "última lição" que o autor proferiu em 20 de Setembro de 2013 no anfiteatro principal do Departamento de Química da sua Universidade, entre muitos colegas e amigos (tive a oportunidade de lá estar). É, de certo modo, um resumo da sua trajectória científica e nele o autor faz um balanço da controvérsia que o seu "modelo dos estados de intersecção" (em inglês Intersecting State Models, ISM) e a "teoria de efeito túnel", mais o primeiro do que a última, por ter enfrentado um paradigma instalado na comunidade química, da autoria do químico canadiano Rudolph Marcus, que lhe valeu o Prémio Nobel da Química em 1992. A proposta que Formosinho fez com os seus colaboradores foi considerada uma heterodoxia científica e é esta a história dessa heterodoxia que ele conta no seu livro mais recente, servindo-se de um argumentário vindo das artes. Contra ventos e marés o ISM, a ideia "bonita" do autor, conseguiu afirmar-se, tendo-se já espraiado por várias dezenas de publicações.

O Prof. Formosinho foi meu professor nos idos de 1973-1974, na cadeira de Química Geral: tinha chegado dois anos antes da Royal Institution de Londres, onde tinha feito o doutoramento com  George Porter, Prémio Nobel da Química de 1867 (com Manfred Eigen e Ronald Norrish). Boa parte da Química que eu sei devo-a a ele. Depois disso, tem sido um colega e amigo com quem já escrevi dois artigos, um no Boletim da Sociedade Portuguesa de Química sobre a recepção da teoria quântica em Portugal e outro sobre a "religião cósmica" de Einstein, em sair em breve na revista Estudos do CADC. Não sendo eu químico, foi bondade sua ter-me pedido para apresentar Nos Palcos da Ciência.

A carreira do autor é muito diversificada: inclui as normais componentes científica e pedagógica (para além de professor de uma multidão de alunos, é autor de manuais não só para o ensino superior como para o básico e secundário), mas também uma componente política (foi, embora por pouco tempo, Secretário de Estado do Ensino Superior), de gestão académica (dirigiu o pólo de Visei da Universidade Católica), técnica (foi membro da Comissão Científica Independente, que estudou a Co-Incineração de Resíduos Industriais Perigosos, muito badalada no final do século passado a propósito da cimenteira de Souselas), de empreendedorismo (registou patentes e iniciou startups) e cultural (tem uma série de livros entre a ciência, a filosofia  e a teologia, a meias como o padre Oliveira Branco, vários artigos sobre história e sociologia da ciência, e artigos artigos sobre bibliometria científica). Um autêntico homem do Renascimento, portanto. Marcos de uma longa e fértil longa e fértil trajectória académica foram recompensas públicas como o prémio Artur Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa (1972), a medalha Ferreira da Silva da Sociedade Portuguesa de Química (1984), o Prémio Gulbenkian de Ciência (1994), o prémio de Estímulo à Ciência da FCT (2004) e o prémio Inventa da Caixa Geral de Depósitos (2011). 

Não sendo especialista em química não posso apreciar devidamente a sua contribuição para essa ciência que deixou em quase duas centenas de artigos e em alguns manuais científicos.  Mas, ao ler Nos Palcos da Ciência, fiquei com uma ideia mais nítida da controvérsia que o modelo do ISM provocou e dos méritos dos seus proponentes, O principal autor fez questão, ao longo dos anos, de anunciar ao país e ao mundo as dificuldades que foi encontrando em publicar o modelo e suas aplicações nas revistas científicas, em geral devido a pareceres negativos dos referees. Conhecia os seus livros em que ele foi tratando esse assunto:
- Nos Bastidores da Ciência. Resistência dos Cientistas à Inovação Científica, Gradiva, Lisboa, 1988. - O Imprimatur da Ciência. Das Razões dos Homens e da Natureza na Controvérsia Científica, Coimbra Editora, 1994.
- Nos Bastidores da Ciência: 20 anos depois, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2007.
- Uma intuição por Portugal, Artez, Coimbra, 2009 (em cujo lançamento colaborei no Museu de Ciência da Universidade de Coimbra).
Confesso que, de início, fiquei admirado com o desprendimento com que o autor publicava as frases por vezes nada simpáticas dos referees. Normalmente quando recebemos muitos pareceres negativos abandonamos o caminho por onde íamos (os cientistas aceitam o primado da avaliação por pares, que apesar de todos os defeitos que possa ter, ainda é o melhor dos métodos de avaliação)Depois passei a admirar a convicção e a persistência do autor. O ISM deve ser a teoria científica moderna de autores portugueses sobre a qual existem mais materiais à disposição dos historiadores de ciência. Em Nos Palcos da Ciência há uma fotografia de pareceres impressos em folhas A4, a maior parte de rejeição, que formam uma pilha de mais de 7 cm! Está publicada a história praticamente toda do ISM, os falhanços e os êxitos, as rejeições e os apoios. É um exemplo invulgar de enfrentamento de um paradigma instalado na ciência: Marcus e seus seguidores olham para a cinética química (a parte da química que estuda a velocidade das reacções) de uma certa maneira, ao passo que Formosinho e colaboradores olham de outra. A filosofia da aproximação é diferente e as duas reclamam a descrição fenomenológica de um grande conjunto de reacções. Algumas são tão bem descritas por uma como por outra, outras mais por uma ou  outra.

O mote para a apresentação do ISM em Nos Palcos da Ciência (repare-se que de 1988 para 2015 o modelo passou dos bastidores para os palcos...)  é, como foi dito, o da apreciação estética. O químico Jorge Calado, no seu monumental livro Haja Luz (uma obra-prima da divulgação científica, já em 3.ª edição) escreveu que o "pitoresco, o belo e o sublime representam uma hierarquia de experiências estéticas, de intensidade e qualidade crescentes".

Pois, servindo-se dessas palavras inspiradoras, Formosinho mostra como o ISN  foi fazendo o seu caminho ao longo das últimas décadas. O livro pressupõe que o leitor tenha alguns conhecimentos de química, recorrendo aqui e ali a fórmulas matemáticas, mas mesmo quem não esteja dentro dos meandros da cinética química, pode-se deixar embalar pela música da narrativa. As palavras "pitoresco", "belo" e "sublime" vão aparecendo em sucessão. Pitoresco quando uma grande quantidade de dados empíricos eram descritos por um modelo simples (com poucos parâmetros), belo quando o mesmo modelo, devidamente ampliado, passou a descrever dados que outros modelos rivais não conseguiam (uma "dupla região invertida" num gráfico, como a bossa de um camelo, em vez de uma simples região invertida) e sublime, quando, aumentando o domínio de aplicabilidade, os belos se foram sucedendo "em harmonia e consistência".

É curioso referir que a ideia dos modelo nasceu de preocupações pedagógicas: ela veio à luz do dia em 1986 num manual universitário da Fundação Gulbenkian com o título Estrutura e reactividade Molecular, escrito a meias com António Varandas. Escolhendo variáveis adequadas, vários pontos experimentais caíam sobre linhas rectas. Os relatórios de referees foram, porém, arrasadores quando a proposta chegou à caixa de correio de revistas especializadas. A teoria de Marcus estava bem estabelecida e daria, de resto, em breve um Nobel ao seu autor.  Depois ocorreu uma pausa. Escreve Formosinho de uma forma que poderá surpreender alguns leitores:
"O exercício da actividade política como secretário de estado veio-se a revelar útil para a minha investigação, pois permitiu atenuar obstáculos conceptuais que eu mesmo tinha desenvolvido".
Normalmente, os ex-governantes queixam-se do tempo tirado à ciência... Mas há mais: um dos avaliadores sugeriu a certa altura que os autores se afastassem do assunto durante um tempo e Formosinho confessa que seguiu esse conselho! Mas o "bichinho" estava lá e em 1991 voltou. Trabalhos feitos em colaboração com Luís Arnaut permitiram chegar ao patamar do "belo", algo para lá do "pitoresco". Em 2003 eles e outros colaboradores publicaram um artigo na prestigiada revista Journal of the American Chemical Society que pode ser considerado um ponto de viragem na história da teoria (os autores festejaram com um bolo com o nome das iniciais da revista inscrito na cobertura).  E depois não tardou a chegar o "sublime". Em 2007 dois artigos sobre o ISM passaram a ser referidos num manual clássico de química orgânica (o Carey e Sundberg, na sua 5.ª edição) e Formosinho, Arnaut e Burrows publicaram um manual sobre cinética química (Chemical Kinetics. From Molecular Structure to Chemical Reactivity) na célebre editora Elsevier (a editora do último livro de Einstein), que passou a ser adoptado por sítios improváveis como, por exemplo, a Universidade de Turku na Finlândia.

O que disse o Prof. Marcus, o autor (hoje com 93 anos) da "teoria de Marcus", sobre os trabalhos de Formosinho e colaboradores? Nada! Mas visitou Portugal por duas vezes, em 1986 e 1993, para participar em conferências científicas em Lisboa e no Algarve, mas, apesar de ter convivido de perto com o Prof. Formosinho (inclusivamente foi visita de casa), não trocou com ele quaisquer palavras sobre as teorias em conflito, a não ser umas palavras muito lacónicas de elogio da apresentação feita por Formosinho numa dessas conferências: junto à porta do elevador, disse "Sebastian, I should have said, you were very good". Enfim, dois cientistas que se respeitam ao ponto de não quererem enfrentar directamente o outro com disputas.

Por último, uma palavra sobre o papel da estética em ciência. O belo tem funcionado, em vários ramos da ciência, não apenas como um caminho heurístico mas também como um critério de validação. O poeta Keats disse que "o verdadeiro era o belo" e "o belo era verdadeiro". Em matemática essa equação poética é praticamente indiscutível. E em física, uma disciplina assente na matemática, também. Paul Dirac, o autor da mecânica quântica relativista, escreveu em 1963:
"It seems that if one is working from the point of view of getting beauty in one's equations, and if one has really a sound insight, one is on a sure line of progress. If there is not complete agreement between the results of one's work and experiment, one should not allow oneself to be too discouraged, because the discrepancy may well be due to minor features that are not properly taken into account and that will get cleared up with further development of the theory."
Hoje em dia as teorias de campos, que estão nas fronteiras do nosso conhecimento do universo, baseiam-se no conceito de simetria, um tema eterno da arte. As "teorias de tudo" reclamam ser expoentes da estética. O físico Frank Wilczek (Nobel da Física de 2004) tem um livro muito recente intitulado A Beautiful Question, onde coloca a interrogação: "o mundo é uma obra de arte?". 

O belo é hoje invocado em química e, dado o papel central da química, também em biologia. Além de Jorge Calado,  o químico Roald Hoffmann (Nobel da Química em 1981) tem enfatizado o belo na química, desligando-o da noção de simples. Declarou ele um dia ao New York Times:
"Complexity, not simplicity, is the essence of life. Take two molecules - say, dodecahedrane, a nice, simple, soccer-ball-shaped molecule, which has no use, and hemoglobin, an incredibly convoluted, complex molecule. For me, the hemoglobin is the more beautiful because of, and not despite, its complexity. Its complex form is essential for doing the complex things it has to do.
E o bioquímico americano Arthur Kornerg (Nobel da Medicina em 1959), que é citado por Formosinho em Nos Palcos da Ciência, escreveu: 
"Much of life can be understood in rational terms if expressed in the language of chemistry. It is an international language, a language for all of time, and a language that explains where we came from, what we are, and where the physical world will allow us to go. Chemical language has great esthetic beauty and links the physical sciences to the biological sciences.” 
O livro do Prof. Formosinho termina com um convite para nos curvarmos perante a beleza de um  pôr do Sol, retratado por ele próprio na capa de um livro. O belo está na natureza e, por isso, está na ciência.

sábado, 20 de agosto de 2016

O LEVE ODOR DOS NOVELEIROS


Ângelo Alves, nascido em 1978 em Póvoa da Lomba (Cantanhede)  é co-autor deste blogue. Conheço-o há muitos anos por ter sido meu aluno no curso de Física em Coimbra (formou-se em Ensino da Física). Já na altura era um devoto da boa literatura tendo-me surpreendido com os livros que trazia para a aula. Decerto que tem surpreendido muitos leitores deste blogue com as suas escolhas literárias. Descobriu a certa altura a sua vocação poética, da qual dão testemunho três livros saídos até hoje: Doidivino (Temas Originais, 2012), Falo do Fundo (Papiro, 2014) e o mais recente O Leve Odor dos Noveleiros (Temas Originais, 2015).

O Leve Odor dos Noveleiros  é um pequeno livro que contém 369 haikus, a forma de poesia originária do Japão mas que encontrou grandes cultivadores no mundo ocidental. O mestre tradicional é  Matsuo Bashō (1644–1694), autor do mais famoso haiku, que em português se pode traduzir assim :

velha lagoa . . .
um sapo salta nela
o som da água

Há muitas outras traduções; no original há 17 sílabas, em três frases de cinco, sete e cinco silabas, ou melhor "sons", pois se trata de sílabas japonesas, mas essa estrutura perde-se normalmente na tradução. Por exemplo, Wenceslau de Moraes, que viveu no Japão, traduziu de um modo mais prolixo:


     Um templo, um tanque musgoso
     mudez, apenas cortada
      pelo ruído das rãs
      saltando à água... mais nada


Em Portugal, o haiku foi cultivado, embora por vezes com adaptações, por Eugénio de Andrade. Herberto Hélder, Jorge de Sena, Casimiro de Brito, Albano Martins e José Tolentino de Mendonça. 

Essa forma poética é normalmente utilizada para encapsular um instante, um contacto breve mas emocionalmente intenso entre o poeta e a Natureza. Há uma percepção sensorial imediata e necessariamente subjectiva, É típico existir uma pausa (um corte, por vezes com um sinal gráfico) para justapor ou contrastar duas imagens, sentimentos, ou ideias, por exemplo, no haiku de cima, o salto do sapo na água da lagoa e o som recolhido pelo ouvido. 

Ângelo Alves escreveu haikus literariamente muito expressivos, onde se encontram palavras muito  simples (as palavras mais frequentes são "ar", "sol", "terra", "água", "flor", "amor" e "rosa", mas também palavras pouco usuais como "cabrestante", "arrebol", "terebintina", "abrasão", "acme" (eu aprendi no seu livro palavras novas como "cacófato", "lúteo", "eufrásia", alcaçuz", etc.) Procura seguir o conceito que estrutura o haiku, mas não recorre à  rima, nem anda a medir o número de sílabas. Os temas são os da poesia universal: a Natureza, o eu, o amor, a vida, a morte, etc. Não há a preocupação de ordem temática, pois, tal como a vida, a poesia vai acontecendo. O livro é uma sucessão de 369 instantes, mais do que dias há no ano.

Para que apreciem a beleza dos versos de Ângelo Alves, escolho aqui alguns haikus. Sobre a natureza viva (há outros animais para além dos sapos):

Choro e os pardais
Cantam, no cebolal,
Ao arrebol e à chuva.

A terebintina
Desce pelo corte — a várzea
Aguarda as ovelhas.

O melro abandona
O ninho e é logo velho.
Tirocínio breve.

São agitadores,
Os gritos dos corvos com cio.
Soltam meu silêncio.

Entre escolhos negros,
No mar calmo, deambula
Um camarão lúcido.

O Sol impera, como se vê nos exemplos seguintes:

Ar árido. O sol
Assoma ao mar — e a âncora
Sobe ao cabrestante.

Dia solarengo
E aguardo a trégua da chuva.
Vejo-me, sozinho.

Eu deveria estar
Contigo, dentro de uma noz,
A inalar o sol.

E vejamos quando o amor (ou, pelo menos, a possibilidade dele) aparece ao sol:

Era a praia, quando
Te conheci. Eras o mar
Frio sob o zénite.

Vi-te a acenar
E os músculos dos meus pelos
Abriram o olhar!

Cavalos assombram
O noveleiro. Os teus seios
Galopam no nevoeiro.

O meu coração
Caiu no atrito do teu chão.
Arde, a abrasão!

A névoa humedece
O teu cabelo telúrico —
Carícia inefável.

Gravei o silêncio
Do teu corpo — as ondas do mar
Morriam perto.

Na tua blusa, cor
De alface-do-mar, o sol
Intumesce os cumes.

Os breves instantes,
Em que te vi, foram seis dias
E seis noites na acme.

Espraio o nome
Porque a dor é espinho, é barco
À espera da Rosa.

Mas há também livros, em particular, livros de poesia (o autor é um devorador de poesia e de facto só pode escrever poesia como ele quem leu muita)

Nos livros perenes,
Interno-me. Aí, reina o siso,
Voam pormenores.

Acumulo livros
Dentro do casulo preso
À folha das árvores.

Cresce o meu apego
À poesia — nimbo ou lágrima
Que à noite acalento.

É difícil escolher o melhor haiku dos 369. 369 leitores escolheriam, porventura, outros tantos. Eu escolho este:

Se pudesse rachar
O coração, como se racha
Uma romã, achar-me-ia.

Leiam o Ângelo Alves para escolherem outro...

UMA VOLTA PELA COSTA DE PRATA

 Costa de Prata é a região costeira de Portugal entre a foz do rio Douro e o concelho de Torres Vedras. Fiz há dias parte dela, da Figueira da Foz a Aveiro e, apesar de conhecer bem a região, encontrei novos motivos de interesse. Começando pela foz do rio Mondego, o forte de S. Catarina, de onde o batalhão académico tirou a bandeira francesa antes de Wellington desembarcar, está restaurado, com um belo espelho de água à frente (na figura vista do Hotel Costa de Prata). Na Figueira também está restaurado (falta só o torreão) a Casa do Paço com vista para a marina da Figueira (ver figura) e com paredes revestidas a magníficos azulejos de Delft (ver figura) que devem cá ter vindo parar num naufrágio de um barco holandês (visitem-se também por causa dos tectos as cavalariças do Paço, hoje ocupadas pelo Banco Millennium), no Cabo Mondego, na Serra da Boa Viagem, foi há pouco inaugurado um "prego de ouro" que assinala a base do Jurássico, um pouco a norte de Quiaios encontram-se lagoas tranquilas (a  maior das quais é a da Vela, ver figura), em Mira, cuja praia recebe a bandeira azul desde há 30 anos, é bom almoçar no Restaurante Caçanito, com esplanada sobre a praia (ver figura, não havia o pitéu de raia, mas havia boa sardinha assada). Finalmente, um pouco mais a norte, já em plena ria de Aveiro, em Ílhavo, vale muito a pena ver o novo Museu da Vista Alegre, completamente restaurado, assim como a Capela anexa onde está o túmulo do bispo D. Manuel de Moura Manuel, que foi reitor da Universidade de Coimbra (ver figuras,  recomendo para além do circuito do museu as várias exposições temporárias de ilustração). Ao lado há um novo hotel, cheio de estrelas.















TOP500 DOS SUPERCOMPUTADORES


Em Junho passado foi anunciada a nova lista dos maiores supercomputadores do mundo. A China já tinha o 1.º lugar com o Tianhe2, que rendia 33,86 petaflops, Agora houve uma entrada directa para o primeiro lugar doutro supercomputador chinês, o Sunway TaihuLight, que consegue 93,01 Teraflops, ficando o Tianhe2 relegado para 2.º lugar. Os 4 lugares seguintes mantêm-se: são ocupador por dois supercomputadores americanos, o Titan e o Sequoia, um japonês, o K-computer, outro americano, o Mira. Um outro sistema americano, o Trinity, entra para o 7.º lugar relegando o sistema suíço Piz Daint para o 8.º lugar. Os 9.º e 10.º lugar são novos, o sistema alemão Hazel Hen e o sistema saudita Shaheen II. Por fabricantes, a Cray ganha no top10 por ter 5 sistemas. Segue-se a IBM com 3,  a TRCPC e a NUDT (as duas chinesas) e a Fujitsu (japonesa) com um cada uma. Eis a lista: 

 Rank / Site /System / Cores Rmax (TFlop/s) / Rpeak (TFlop/s) / Power (kW)

1 National Supercomputing Center in Wuxi China / Sunway TaihuLight - Sunway MPP, Sunway SW26010 260C 1.45GHz, Sunway NRCPC /10,649,600 / 93,014.6 / 125,435.9 / 15,371

2 National Super Computer Center in Guangzhou China / Tianhe-2 (MilkyWay-2) - TH-IVB-FEP Cluster, Intel Xeon E5-2692 12C 2.200GHz, TH Express-2, Intel Xeon Phi 31S1P NUDT  / 3,120,000 / 33,862.7 / 54,902.4 / 17,808

3 DOE/SC/Oak Ridge National Laboratory United States / Titan - Cray XK7 , Opteron 6274 16C 2.200GHz, Cray Gemini interconnect, NVIDIA K20x Cray Inc. / 560,640 / 17,590.0 / 27,112.5 / 8,209

4 DOE/NNSA/LLNL United States Sequoia - BlueGene/Q, Power BQC 16C 1.60 GHz, Custom IBM/1,572,864 / 17,173.2 / 20,132.7 / 7,890

5 RIKEN Advanced Institute for Computational Science (AICS) Japan / K computer, SPARC64 VIIIfx 2.0GHz, Tofu interconnect Fujitsu /705,024/ 10,510.0 /11,280.4 / 12,660

6 DOE/SC/Argonne National Laboratory United States / Mira - BlueGene/Q, Power BQC 16C 1.60GHz, Custom IBM / 786,432 / 8,586.6 / 10,066.3 / 3,945

7 DOE/NNSA/LANL/SNL United States /Trinity - Cray XC40, Xeon E5-2698v3 16C 2.3GHz, Aries interconnect Cray Inc./ 301,056 /8,100.9 / 11,078.9 / -

8 Swiss National Supercomputing Centre (CSCS) Switzerland / Piz Daint - Cray XC30, Xeon E5-2670 8C 2.600GHz, Aries interconnect , NVIDIA K20x Cray Inc. / 115,984 / 6,271.0 7,788.9 / 2,325

9 HLRS - Höchstleistungsrechenzentrum Stuttgart Germany / Hazel Hen - Cray XC40, Xeon E5-2680v3 12C 2.5GHz, Aries interconnect Cray Inc. /185,088 / 5,640.2 / 7,403.5/ -

10 King Abdullah University of Science and Technology Saudi Arabia / Shaheen II - Cray XC40, Xeon E5-2698v3 16C 2.3 GHz, Aries interconnect Cray Inc., / 196,608, /5,537,0, /7,235,2, /2,834

na imagem o n.º 1, o Sunway TaihuLight, que tem mais de dez milhões de processadores.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

"A educação deu-me cabeça para pensar"

"Naquela época, quando éramos crianças, corríamos descalças quase oito quilómetros para ir à escola (...) Em África acreditamos que a escola é fundamental para conseguir uma vida melhor. O meu pai não ficou satisfeito quando comecei com os dardos, a treinar e a competir, porque ele queria que eu continuasse a estudar. A educação é muito importante. Deu-me cabeça para pensar."
Julius Yego, nascido e criado no interior do Quénia, quis aprender a lançar dardos. E conseguiu-o, primeiro sozinho, depois com a ajuda de amigos. Via na internet como faziam os seus heróis e praticava. Não teve treinador, nem equipa de apoio. Teve paus, determinação e informação.

Seria de esperar que nem se referisse à escola, afinal não foi lá que aprendeu a arte que o tornou campeão mundial e olímpico, mas não é assim. Julius Yego explica em quatro breves palavras a importância da educação formal: "Deu-me cabeça para pensar."

Jacint Verdaguer




Cheguei a alguns poetas através da leitura de ensaios de Claudio Magris, Josep Pla, Ryszard Kapuściński e Roberto Bolaño, todos eles com o gosto de viajar em comum. Foi assim com Vicente Huidobro, Mihai Eminescu, Ernesto Cardenal, Carlo Michelstaedter, Dino Campana, Ivan Drach, José Maria Valverde, Yéghiché Tcharents, Nezami, Jacint Verdaguer…
Em Al Cel, livro do poeta Jacint Verdaguer, dedicado em exclusivo à música das esferas celestes, encontrei o poema La Via Lactea, que, por entender pouco o catalão, deixo aqui o original.

La Via Lactea

¿Qes aqueix riu d'estreles

 que con anell guarnit de pedres fine

 cenyeix l'immensitat de l'hemisferi?
 Jo ho preguntí als mitolecs,
i un respongué:- Es un raig de llet de Juno
caigut mentres donava l pit a Hercules. -

Altre m digué que Faetó, al caure
de son carro de foc, un astre, eixint-se
de son camí ordinari,
socarrimà l'espai en sa carrera.
 
 
No gaire satisfet de la resposta,
ne demanava als filosops i astronoms.
Me respongué Aristotil: - Es un nuvol
de vapors secs que més amunt de l'eter
cabellera de flames arrossega.
-No! - digué un seu deixeble. - En el principi,
al començar lo sol els seus viatges
per la volta estelífera, son carro

deixâ en el firmament eixa rodera.
- Jo crec- digué Democrit
que es la claror dels astres que a miriades
en la blavor siderea s'acongesten
com sobre l Nil els platejats nenufars. -
Demaní son parer a Teofrastes,
i em respongué : - Això es la soldadura
ab que Déu encaixà ls dos hemisferis
que formen l'estrellada. Per l'escletxa
que deixa lo cosit, la llum de dintre
del firmament brolla i traspua a fòra.


Demaní l seu a un vell pastor de Nuria,
i em digué que es la via de Sant Jaume,
per on, a son exemple,
les animes sen pugen a la Gloria.
 
No sabia més lletra que ses cabres,
el vell pastor de Nuria,
més posí sa contesta lluminosa
damunt la d' Aristotil
i la de tots els savis de la Grecia.
 

No endereço http://bdh-rd.bne.es/viewer.vm?id=0000128416&page=1 pode se consultar a obra.