segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Sobre uma crónica anti-ciência de Miguel Sousa Tavares

Texto recebido de F. Pacheco Torgal (Universidade do Minho):

O Semanário Expresso serviu este fim de semana de repositório ao lixo de uma crónica canalha do Dr. Miguel Sousa Tavares. Diz o famoso articulista que os bolseiros de investigação são, principalmente na área da sociologia, um grupo de indolentes que mais não fazem do que produzir “estudos ou investigações” absolutamente redundantes. E que terminada a sua bolsa deveriam seguir à sua vida “agradecidos pelo apoio recebido”. Escreve ainda que os mesmos bolseiros conseguiram obter do Ministro Tiago Brandão Rodrigues (esquecendo-se do pequeno pormaior que o Ministro que os tutela dá pelo nome de Manuel Heitor) a transformação de bolsas em contratos de trabalho “de três anos renovável por mais três”. Escreve também que não contentes com uma tal benesse que o sonho dos ingratos bolseiros de investigação é apenas o de serem funcionários públicos. E que para isso, pasme-se, contam com o bizarro apoio do BE e do PCP. O segredo do arranjinho é por ele revelado de forma muito sui generis "Entra-se como bolseiro por um ou dois anos com a contrapartida de ir investigar qualquer coisa e sai-se como funcionários públicos para vida, com a vaga função de ir investigando-sem prazo, sem programa, sem obrigação de resultados". 

Como se a sua crónica não contivesse alarvidades suficientes o Dr. Sousa Tavares ainda achou necessário escrever que não percebe porque é que não houve largas dezenas ou mesmo centenas de investigadores alocados ao estudo da febre hemorrágica dos coelhos bravos, gravíssimo problema segundo ele e para o qual já tinham alertado as associações de caçadores, as quais representam nada mais nada menos que cerca de 300.000 caçadores e onde o Dr. Sousa Tavares se inclui. A tal insigne classe a que o nosso país tanto deve, que retira um bizarro prazer no abate de indefesas criaturas, a mesma que têm o criminoso hábito fertilizar os espaços agrícolas e cursos de água com um metal pesado de toxicidade bem conhecida assim envenenando todos os anos milhões de espécies e cujo real custo ambiental e económico ainda está por apurar http://www.humanesociety.org/issues/campaigns/wildlife_abuse/toxic-lead-ammunition-poisoning-wildlife.html? Não foi certamente por acaso que uma das últimas medidas tomadas pelo Presidente Obama no último dia como Presidente dos EUA foi precisamente a de proibir a caça com cartuchos de chumbo http://freebeacon.com/issues/obama-official-issues-ammunition-ban-federal-lands-last-day-office/ Infelizmente esse não é porém um tema que incomode a consciência do Dr. Sousa Tavares obcecado que anda em revelar os tenebrosos planos do BE e do PCP que segundo ele não têm pejo em delapidar o erário público com a impensável e inadmissivel nomeação por tempo indeterminado de algumas poucas centenas de bolseiros de investigação.

É deplorável que o Dr. Miguel Sousa Tavares tenha uma tão insuficiente, redutora e até inverdadeira opinião sobre o trabalho dos bolseiros de investigação (não vale sequer a pena comentar o que ele acha que conhece sobre o que se passa em termos de investigação noutros países) mas a culpa da sua atrevida ignorância não será só dele pois quem na nossa excelsa classe política permitiu que uma tal ignóbel narrativa fosse construída e que em resultado da mesma uma tal ignara opinião se formasse também tem muitas culpas no cartório. Num tempo em que a nível mundial viceja uma oligarquia que manipula a seu bel-prazer a classe politica e brinca com a democracia reservando para si apenas privilégios e nunca deveres, num tempo em que parece que quase ninguém se pode designar de incorruptível, num tempo em que o papel da academia enquanto garante de um conjunto de valores éticos fundamentais é mais necessário do que nunca é incompreensível que aqueles cujo trabalho é apenas e tão somente o da procura da verdade e ainda por cima quando se sabe que muitos deles até se sujeitam à extrema humilhação de trabalhar sem nada receber (situação que em nada parece incomodar a boa consciência do Dr. Sousa Tavares) apenas na ilusória expectativa de um dia poderem aceder a um eventual contrato de trabalho, assim sejam sujeitos a este enxovalho gratuito que a todos não pode deixar de ofender profundamente.


F.Pacheco Torgal

Contra o Acordo Ortográfico

Fiz hoje declarações à jornalista Luciana Leiderfarb do "Expresso" contra o Acordo Ortográfico de 1990 a propósito do Manifesto recentemente divulgado. Ver aqui:

http://leitor.expresso.pt/#library/expressodiario/23-01-2017/caderno-1/temas-principais/os-autores-do-acordo-ortografico-nunca-foram-capazes-de-explicar-a-sua-bondade

O Manifesto hoje divulgado começa por falar em "golpe político", na medida em que o AO a ser aplicado sem que todos os Estados o tivessem ratificado. Que opinião lhe merece esta situação?
O AO é uma boa confusão e nunca me convenceu. A ideia, diziam os seus autores, era unificar a ortografia do portuguesa e contribuir para a afirmação no mundo da comunidade dos países de língua
portuguesa. Ora, o AO ficou muito longe da unificação ortográfica - aliás impossível e de resto nem sei se desejável -   e quanto  à afirmação da lusofonia é claro que o projecto não ficou fortalecido.
A falta de harmonia quanto ao AO pelos diversos países salta à vista. Há uns à frente e outros atrás, quando a ideia era um avanço conjunto. Na minha opinião, a língua não tem de andar mandada pela política. A língua é de todos, é um património comum, no qual tanto a unidade como  a diversidade são valores.  A língua demorou muito tempo a  formar e não pode ser formada (para muitos deformada) de repente na secretaria. Lembro que a língua portuguesa é uma das grandes línguas de cultura no Ocidente, o que inclui não só a literatura como a ciência.
Os subscritores erguem-se contra o principal critério do AO - o da pronúncia - e elenca as "aberrações" que tal critério produziu. Pessoalmente, em que medida isso o incomoda ou alterou a sua relação com a língua?
O AO não me incomoda nada, pois não o sigo. Escrevo como aprendi e sei. Não cortei consoantes mudas, não mudei as maiúsculas, nem os hífens. Felizmente que os polícias da língua ainda não me prenderam.  No manifesto estão elencadas apenas algumas das aberrações. Os autores do AO nunca foram capazes de explicar a sua bondade. Criaram mais problemas do que resolveram, ao pretenderem relacionar mais a escrita com a fonética. Eu sei que a  ortografia não é eternamente fixa e admito que, tal como no passado, possa haver mudanças consensualizadas. Mas neste caso não houve consenso nenhum. Foi à trouxe-mouxe (nem sei se lhe tiraram o tracinho)!
Fala-se também de um abuso de poder relativamente ao AO90, aplicado sem discussão pública e escondendo 25 pareceres negativos de especialistas. Por que acha que isto aconteceu? Pensa que ainda vamos a tempo de o discutir e reverter o processo?
Não sei por que aconteceu. Talvez pela procura de protagonismo de alguns actores. Estamos sempre a tempo de emendar o que está mal. Aliás já ouço falar em revisão do acordo...A melhor revisão seria
provavelmente anulá-lo.
Com o AO, tentou-se unificar as ortografias oficiais e anular as diferenças entre o diferentes usos do Português. O que é que isso revela sobre os portugueses?
Eu não penso que seja possível anular as diferenças. Nem sei para que isso possa servir. Como se diz no texto, nenhuma outra língua com variantes, como o inglês, o castelhano ou o francês, se preocupou com tal coisa,. Até agora o AO não trouxe qualquer benefício prático. Só um aumento de entropia.
Uma revisão do AO não criaria confusão a quem hoje aprende a escrever segundo as novas regras?  
Se se rever o AO, incluindo uma revisão total que seria a sua anulação, não penso que houvesse grande incómodo. Uma coorte de crianças e jovens, que aprenderam segundo o AO, continuariam
sem dificuldade a perceber tudo e reaprenderiam facilmente a escrever segundo outra norma.

A Fé dos Homens de 23 Jan 2017 - RTP Play - RTP


Entrevista minha que passou hoje na RTP2 sobre o livro que escrevi com José Eduardo Franco, "Jesuítas Construtores da Globalização" (CTT), a propósito do filme "Silêncio" de Martin Scorsese:

A Fé dos Homens de 23 Jan 2017 - RTP Play - RTP

José Pires Ferreira da Silva, meu professor

Faz hoje, dia 23 de Janeiro, um mês que faleceu o Doutor José Pires Ferreira da Silva, professor catedrático da Universidade de Coimbra, um dos fundadores da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação e também um dos seus primeiros e mais marcantes docentes.

Tive a honra de ser sua aluna na Licenciatura em Psicologia em mais do que uma disciplina, mas foi em Introdução à Psicologia, logo no primeiro ano, que me fez perceber a exigência do pensamento académico. Continuo a esforçar-me para conseguir corresponder a essa exigência.

Não escreveu muito o Professor Ferreira da Silva mas o que escreveu não parece ressentir-se com o passar do tempo. Relendo artigos que publicou há quarenta, trinta, vinte, dez anos vislumbro neles uma frescura que não os fixa no passado, antes os impele para o futuro. As múltiplas leituras que lhes estão subjacentes, a síntese rigorosa, a acutilante crítica, a honestidade irrepreensível e a fina ironia, numa escrita depurada, claríssima, onde não há uma palavra a mais nem a menos, significando exactamente o que pretende significar, tornam esses artigos e outros textos, bases de trabalho na Psicologia, na Pedagogia, na Epistemologia.

Sendo um homem discreto, pouco deu a conhecer a sua obra: ela ia saindo nas revistas e nos livros, tornando-se independente do autor.

Deixo ao leitor a possibilidade de perceber isso mesmo num dos seus últimos artigos intitulado Freud e os seus doentes: notas marginais, cujo resumo ilustra exemplarmente o texto.
"Depois de algumas considerações críticas sobre a experiência clínica de Freud, procura-se, na base sobretudo da sua correspondência, confidências e outros testemunhos, lançar uma luz, nem sempre lisonjeira, sobre a sua real atitude para com os seus doentes. Palavras-chave: psicanálise; tratamento psicanalítico, relação analista/ analisado."

domingo, 22 de janeiro de 2017

Ainda o PISA

Aitor Hernández, correspondente de um jornal espanhol, fez-me algumas perguntas para preparar um trabalho sobre a subida de Portugal no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, promovido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

Que razões justificam os resultados de Portugal no último PISA?
Os resultados que Portugal obteve na primeira avaliação PISA, publicados em 2001, foram, por referência à média, muito baixos, o mesmo acontecendo com a segunda avaliação. Isso teve repercussão no sistema, nas escolas e nos professores, sobretudo nos professores das disciplinas visadas: Matemática, Ciências e Português. Independentemente das discussões e acusações que vieram a público, foram tomadas medidas por parte do Ministério da Educação, que, apesar de sujeitas a críticas, algumas delas pertinentes, conseguiram mobilizar as escolas e os professores para um ensino estruturado e para o acompanhamento dos alunos. Os resultados desse trabalho começaram a ser visíveis a partir de 2006, mas só agora se destacaram, ao ponto de Portugal ficar, nas três áreas disciplinares, num lugar acima da linha crítica desse Programa. Isso foi, certamente, significativo para as escolas e para os professores; foi também, ou deveria ser significativo para a sociedade, que viu uma certa vertente da aprendizagem escolar melhorada.
Estes resultados devem ser motivo de celebração?
Devem ser motivo de celebração mas também de apreensão. Para explicar a minha posição, que pode parecer ambivalente, relembro que PISA mede, compreensivelmente, as competências que a OCDE entende serem adequadas ao desenvolvimento económico-financeiro, o que implica a resolução de problemas com que nos confrontamos no quotidiano. Por isso, devemos celebrar, como antes expliquei, o facto de os nossos alunos terem começarem a ter sucesso a esse nível. Agora o motivo de apreensão: a educação escolar não pode ter em conta apenas a aquisição das competências instrumentais no âmbito dessas três disciplinas, tem de ter igualmente em conta o alargamento de horizontes conceptuais, o discernimento crítico, a fruição estética… competências que estão associadas às artes e às humanidades mas também ao que no campo das ciências e da matemática não é de ordem pragmática.
O que pode Portugal fazer para subir na pontuação?
Certamente, continuar a trabalhar no sentido no sentido de levar os alunos do ensino básico a melhorar a aquisição e demonstração das competências que o PISA mede. Se nos esforçarmos, conseguiremos atingir esse propósito, mas entendo que essa deve ser uma preocupação entre outras. Tendo chegado aqui, é altura de revalorizarmos as componentes “mais contemplativas” das ciências e da matemática, mas sobretudo das artes e das humanidades que concorrem para a formação do pensamento livre. Há uma urgência particular de revalorizar a cultura e as línguas clássicas que chegaram praticamente à extinção. 
Como vê a educação em Portugal em comparação com Europa? 
As políticas educativas dos países europeus tendem a aproximar-se. Vejo as mesmas tendências curriculares nas reformas mais recentes feitas em Portugal, Espanha e França. A verdade é que instâncias supranacionais, como a União Europeia, que acentuam substancialmente a competição económica, exercem uma forte influência nas decisões que cada país toma. Não desmerecendo a importância de programas de avaliação como o PISA, talvez seja tempo de os países se articularam no sentido de proporcionarem às novas gerações uma educação escolar que não dependa directamente dessa preocupação..

sábado, 21 de janeiro de 2017

"A universidade empresa e os estudantes-clientes"

Na sequência do texto Mais vale ceder e de comentários de leitores ao texto A verdadeira exclusão, transcrevo um extracto do livro A utilidade do inútil do italiano Nuccio Ordine (pp. 101-109).

"Gostaria de me deter sobre os efeitos catastróficos que a lógica do lucro tem produzido no mundo da educação (...). Ao longo da última década, na maioria dos países europeus, com raras excepções como a Alemanha, as reformas e os contínuos cortes de recursos financeiros têm desfigurado (...) a escola e a universidade. De modo progressivo e muito preocupante, o Estado começou a desonerar-se de encargos económicos nas áreas da educação e da investigação básica. Este processo tem determinado, paralelamente, também a escolarização das universidades. Trata-se de um revolução copernicana que nos próximos anos mudará radicalmente o papel dos professores a a qualidade do ensino. 
Quase todos os países europeus parecem estar orientados para uma redução dos níveis de dificuldade a fim de permitir que os estudantes possam passar nos exames com maior facilidade, na tentativa (ilusória) de resolver o problema daqueles que não acompanham regularmente os cursos. Para diplomar os estudantes no tempo exigido pela lei e para tornar a aprendizagem mais agradável, não se exigem esforços adicionais, mas, ao contrário, procura-se seduzir os estudantes com a perversa redução progressiva dos programas e com a transformação das aulas num jogo interactivo superficial, baseado em projecções em power point e na aplicação de questionário de múltipla escolha (...) 
o mecanismo actual transforma-se num estratagema que obriga as universidades - cada vez mais ocupadas com a despropositada captação de recursos, devido à penúria de fundos - a fazer o impossível para se tornar uma fábrica de diplomas (...)
como escreveu o professor de filosofia Emmanuel Jaffelin no Le monde de 28 de Maio de 2012, as relações entre professores e estudantes parecem estar fundadas substancialmente numa espécie de clientelismo: "pagando muito caro a sua matrícula em Harvard, o estudante não espera somente que o seu professor seja bem formado, competente e idóneo; espera que ele seja submisso, pois o cliente é o rei" (...)
Também nas universidades públicas (...) se procura atrair estudantes a qualquer preço, promovendo verdadeiras campanhas publicitárias, como acontece com os automóveis e os produtos alimentares. As universidades, infelizmente, vendem diplomas e títulos. E vendem-nos insistindo especialmente no aspecto profissionalizante, oferecendo aos jovens cursos e especializações com a promessa de emprego imediato e ordenado atraente (...). 
Também os professores se transformam cada vez mais em simples burocratas ao serviço da gestão comercial das empresas universitárias. Passam os seus dias a preencher formulários, a fazer cálculos, a produzir relatórios (às vezes inúteis) para estatísticas (...) responder a questionários, preparar projectos (...) interpretar normas (...) confusas e contraditórias.  
Parece que ninguém se preocupa, como deveria, com a qualidade de investigação e do ensino. Estudar (com muita frequência esquece-se que um bom professor é acima de tudo um incansável estudante) e preparar as aulas tornaram-se um luxo (...). 
Contrariamente ao que as leis dominantes do mercado e do comércio nos pretendem ensinar, a essência da cultura está baseada exclusivamente na gratuitidade: a grande tradição das academias europeias (...) lembra-nos que o estudo é antes de mais nada a aquisição de conhecimentos que, livres de qualquer vínculo utilitarista, nos fazem crescer e nos tornam mais autónomos. E justamente a experiência do aparentemente inútil e a aquisição de um bem, não imediatamente quantificáveis, revelam-se "investimentos" cujos "lucros" virão à luz a longo prazo. 
Seria absurdo colocar em dúvida a importância da preparação profissional nos objectivos das escolas e das universidades. Mas a tarefa da educação pode ser realmente reduzida à formação de médicos, engenheiros ou advogados?
Privilegiar exclusivamente a profissionalização dos estudantes significa perder de vista uma dimensão universal da função formativa da educação: nenhuma profissão poderia ser exercida de modo consciente se as competências técnicas que ela exige não estivessem subordinadas a uma formação cultural mais ampla, capaz de encorajar os alunos a cultivarem autonomamente o seu espírito e a possibilitar que expressem livremente a sua curiositas. 
Equiparar o ser humano exclusivamente com a sua profissão seria um erro gravíssimo: em todo o ser humano há algo de essencial que vai muito além do seu próprio ofício. Sem essa dimensão pedagógica, ou seja, totalmente afastada de qualquer utilitarismo, seria muito difícil, no futuro, continuar a imaginar cidadãos responsáveis, capazes de abandonar o próprio egoísmo para abraçar o bem comum, expressar solidariedade, defender a tolerância, reivindicar a liberdade, proteger a natureza, defender a justiça..."

Os filósofos devem ser (ou não) estudados em função da cor da sua pele


No início do ano passado, mais ou menos por esta altura, era notícia o reiterado pedido de estudantes de prestigiadas universidades americanas e inglesas para que fossem poupados à leitura de obras que contivessem algo capaz de ferir as suas delicadas sensibilidades. Deve notar-se que os estudantes se referiam a obras da literatura universal (Ver aqui).

Não sendo um acto inovador - a arte foi sempre um campo privilegiado de censura - não deixou de ser particularmente preocupante: afinal, eram aqueles - jovens, estudantes do ensino superior, a frequentar cursos de humanidades - que deveriam ter discernimento para perceber que a grande literatura é a que incomoda as mais robustas sensibilidades, que manifestavam desenvoltura junto das autoridades académicas para se verem livres dela.

Agora são estudantes de uma universidade londrina - School of Oriental and African StudiesSOASque reclamam a retirada de filósofos ocidentais do currículo por... serem brancos! Platão, Descartes e Kant estão no centro da "polémica".

Eis a síntese de depoimentos que li em jornais online (por exemplo, aqui aqui).

A posição desses estudantes é basicamente a seguinte:
A reclamação faz parte de uma ampla campanha para "descolonizar" a universidade: a maioria dos filósofos a estudar deve ser africana e asiática, os europeus devem ser invocados apenas se necessário e somente de um ponto de vista crítico, por exemplo, para "reconhecer o contexto colonial dos chamados filósofos do Iluminismo". 
A posição dos responsáveis universitários divide-se:
Uma posição é de compreensão. 
- Um argumento é que o debate e a discussão sobre o currículo é sempre importante, traduzindo uma dinâmica académica saudável. 
- Além disso, é preciso que as universidades compreendam o sentido do tempo, que é de captar estudantes, sobretudo internacionais, e de os preparar para o mercado de trabalho. É preciso dialogar com eles, perceber as suas necessidades e interesses de formação.
Outra posição é de denúncia.
- Um argumento é que as universidades estão a ser pressionadas pelo governo para agradar aos estudantes, para atender às suas exigências por mais irracionais que elas possam ser. Esta exigência é uma expressão disso mesmo. 
Na reforma do ensino superior em curso, o governo quer colocar a "satisfação dos estudantes" no centro do sistema de avaliação das universidades, o que já tem efeitos: estas começam a evitar tomar medidas que possam criar insatisfação generalizada. Os trabalhos e as classificações constituem talvez a manifestação mais notória, pois uma "maneira de manter os alunos "felizes" é pedir-lhes para fazerem um trabalho qualquer e dar-lhes uma classificação elevada. 
Neste cenário são os padrões e a integridade das academias que vão sendo minados, conduzindo a uma cultura "realmente perigosa" que pode impedi-las de defenderem a "liberdade de expressão". Está, pois, em causa tudo aquilo que a universidade representa.
Outro argumento é que essas exigências surgem da ignorância. No caso concreto, os "filósofos brancos" são autores de ideias que sustentam a sociedade civilizada. Não se pode aceitar descartar uma área de pensamento, que envolve tanto esforço intelectual sem a estudar e os alunos nunca a estudaram nem a querem estudar. "Há um perigo real no politicamente correcto, que está a ficar fora de controle. É preciso entender o mundo como ele é e não reescrever a história como alguns gostariam que ela tivesse sido".  
Uma terceira posição é de realismo (?).
Apesar de a reforma do ensino superior estar ainda em discussão e de, no plano legal, ela poder sofrer uma ou outra alteração pontual, a verdade é que o seu espírito já se entranhou no funcionamento institucional e, portanto, as autoridades universitárias acabarão por não "incomodar" os estudantes, procurando dar resposta aos seus pedidos e exigências: é melhor ceder, a ter de lutar ingloriamente contra... por aquilo que não se pode conseguir.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

GONÇALO VELHO FALA NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA SOBRE EMPREGO CIENTÍFICO

É tão fácil ser adulto!

Imagem retirada daqui.
"Se vai sair à noite não se esqueça desta pulseira. Vai-lhe ser útil. A bracelete monitoriza os níveis de álcool no sangue e partilha a informação com amigos e família por via de uma aplicação própria. Ao voltar para casa depois de uma saída à noite com amigos pode questionar-se se bebeu ou não demais, sendo muitas vezes difícil de perceber se acusaria excesso de álcool no sangue caso tivesse de ser sujeito a um teste por parte da polícia (...) esta bracelete analisa as moléculas da pele para perceber qual o nível de álcool no sangue do seu utilizador, enviado essa informação para uma aplicação própria onde é possível verificar se está ou não apto para conduzir. E porque a sua família e amigos se preocupam consigo, poderá partilhar a informação diretamente através da aplicação, assegurando que está nas condições adequadas para chegar são e salvo a casa".

Toda a educação - no seu sentido mais amplo, não restrita à educação escolar - deve ter em vista a formação do pensamento de tal modo que cada pessoa possa discernir o que está, de facto, em causa em cada circunstância de que toma consciência e possa, caso queira, exprimir livremente a sua vontade, escolhendo entre diversas alternativas e tomando decisões conscientes e responsáveis.

Esta capacidade adquirida - que ocupa sobretudo filósofos e psicólogos, e que os une tanto como os divide - designada por livre arbítrio, define o estado adulto. Ser adulto é, afinal, estar por sua conta e risco e assumir isso mesmo.

Um olhar pelo que se passa à nossa volta não pode deixar de nos questionar: as sociedades modernas permitem chegar a esse estado?

Além do discurso publicitário, presente em cada passo que damos, indicando-nos o que devemos sentir e fazer em relação a tudo o que marca o quotidiano,
amplia-se o discurso das múltiplas auto-ajudas que nos fornecem receitas para os mais diversos estados de alma, actos privados, relacionamentos, e organização da vida nos seus mais ínfimos pormenores
da "educação" veiculada na escola acerca da higiene que devemos fazer, do que devemos comer, da atitude sexual que devemos ter, que destino devemos dar ao ordenado que recebemos, etc, etc.
temos uma panóplia de engenhocas da mais moderna tecnologia que nos vigia, nos alerta, nos guia e muito mais, quando corremos, quando cozinhamos, quando vamos a um bar...

Ser adulto passa a ser muito fácil, basta seguir o que alguém mais competente que nós "cientifica e pedagogicamente" nos manda... sempre em nome do "nosso bem". Não é preciso pensar para agir, é preciso, sim, confiar nos vários "alguéns": se confiarmos o suficiente e se formos muito bem comportados serem felizes e saudáveis. O céu na terra!

Esta reflexão decorre de um anúncio publicitário que vi a uma pulseira electrónica que indica (a um adulto) até que ponto deve beber... uma bugiganga que traduz mais um modo de controlo, um atestado de menoridade, que, em suma, nega o livre-arbítrio.

Mas, se está no mercado é porque tem compradores... pessoas adultas que não se vêem como tal.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

DOIS NOVOS LIVROS INTERDISCIPLINARES DO CLEPUL

O CLEPUL - Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas da Universidade de Lisboa (que tinha sido acintosamente eliminado pela "avaliação" científica ordenada pelo governo anterior), acaba de publicar dois livros em que dá boas provas da sua vitalidade interdisciplinar. Comum aos dois é a coordenação de Annabela Rita, especialista em Literatura Comparada da Universidade de Lisboa. E comum aos dois é a preocupação de juntar letras, artes e ciências. Um dos livros foca-se sobre a transformação e o outro sobre a criatividade:

- Annabela Rita e Dionísio Vila Maior (coords.), "Entremolduras. Da metamorfose nas artes, mas letras e nas ciências", Esfera do Caos, 2016. 

Vasco Graça Moura é homenageado com a transcrição do seu curto mas muito belo discurso de aceitação da distinção "honoris causa" na Universidade do Porto, pouco antes de falecer. Distingo - é uma escolha pessoal - entre os vários textos o de Annabela Rita (“Imagem ao espelho”), Joaquim Fernandes ("Dos universos setecentistas à astrobiologia”), Luís Manuel de Araújo  ("A criação do mundo e  da humanidade no antigo Egipto") e Teresa Maruje (“Da essência do feminino ou do feminino essencial”).

- Annabela Rita e Fernando Cristóvão (coords.), "Fabricar inovação. O processo criativo em questão nas ciências e nas artes", Gradiva, 2016.

Entrecortado com desenhos do arquitecto Charters de Almeida, homenageado no livro, o volume inclui também textos de autores de várias especialidades sobre a criatividade. Distingo, de novo numa escolha pessoal, os textos de Ernesto Rodrigues (“Branco”), José Eduardo Franco ("A história como constru(cria)ção: uma ciência entre a verdade...”, Miguel Real (“O bestiário do escritor na imperfeição da criação literária") e Teolinda Gersão ("Stanislawsky").

Estas obras reúnem uma polifonia de vozes que procuram a unidade do saber. 


Sobre o emprego científico

Informação recebida da Fenprof:

O diploma do emprego científico recentemente produzido pelo Governo, Decreto-Lei 57/2016, de 29 de Agosto, foi ontem discutido no plenário da Assembleia da República, na sequência dos pedidos de Apreciação Parlamentar apresentados pelo Partido Comunista Português (PCP) e pelo Bloco de esquerda (BE), cujas fundamentações acompanham as principais críticas feitas pela FENPROF ao articulado (ver aqui), em particular, o facto deste decreto-lei estar “longe do que deverá ser um adequado e justo tratamento dos investigadores, designadamente quanto à criação de condições de estabilidade e de combate à precariedade, bem como ao seu enquadramento salarial e na carreira, que deve ser valorizada, sendo a inexistência de qualquer medida para conversão dos contratos a termo em contratos sem termo a maior lacuna do projeto.”

A FENPROF esteva presente na Assembleia da República a acompanhar o debate, tendo registado com agrado a disponibilidade manifestada pelo Governo - representado pelo Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES), professor Manuel Heitor - e pelo grupo parlamentar do Partido Socialista (PS) para, no âmbito da Comissão de Educação e Ciência, se proceder à alteração do diploma com vista à sua “clarificação”, e portanto melhoria, nos seguintes dois aspectos:

  • O alargamento da duração do regime transitório e as condições de financiamento que a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) I.P. deverá assegurar às instituições que contratarem investigadores doutorados durante esse período de tempo;
  • A garantia de oportunidade de acesso, mediante abertura de concurso, a um lugar na carreira de Investigação Científica para todos os doutorados ao fim dos seis anos de duração dos contratos a prazo instituídos pelo diploma.

A FENPROF irá acompanhar de perto os trabalhos da Comissão de Educação e Ciência e procurará sensibilizar, uma vez mais, os deputados membros desta comissão para a necessidade e relevância de se fazer reflectir numa nova versão do diploma do emprego científico as medidas que, repetidamente, tem apresentado ao MCTES e divulgado na opinião pública (ver aqui).

Entretanto, foi hoje divulgado o “Manifesto para uma ciência com futuro e direitos para todos” que reivindica o fim da precariedade para quem trabalha em Ciência em Portugal e um quadro de financiamento adequado e estável para a Ciência e as instituições do Sistema Científico e Tecnológico Nacional (SCTN), pelo que apelamos a que os colegas a assinem aqui.

Apelamos também a que, caso ainda não o tenha feito, assine e divulgue a petição sobre o posicionamento incorrecto nas escalas salariais dos colegas que em virtude de terem ganho um concurso foram promovidos para uma das duas categorias superiores da respectiva carreira – professor catedrático ou professor associado, no ensino universitário público, e professor coordenador principal ou professor coordenador, no ensino politécnico público, o que pode fazer aqui.

Valendo o que vale, é, ainda, importante conhecer o debate que está a ser feito na Assembleia da República e as propostas que foram debatidas (BE e PCP) baixaram agora à Comissão e poderão vir a promover alterações ao DL 54/2016. Para saber o que foi aí discutido disponibilizamos aqui o vídeo do debate.

Cordiais Saudações Académicas,
O Secretariado Nacional da FENPROF

Jesuítas portugueses no Japão

Dada a estreia do filme "Silêncio", sobre a saga de missionários portugueses no Japão, antecipo de uns dias o meu artigo na revista cultural nortenha "As Artes entre as Letras", na qual colaboro desde o primeiro número. Refiro duas histórias pouco conhecidas, uma a de Bernardo de Kagoshima, o primeiro japonês a vir à Europa e que está sepultado em Coimbra, e outra a obra científica do padre Cristóvão Ferreira, de Torres Vedras, que é um dos apóstatas do filme:


O recente filme de Martin Scorsese  “Silêncio”, baseado no romance do japonês  Shusaku Endo (1923-1996) com o mesmo título (de 1965, existe reedição recente de tradução portuguesa na Dom Quixote), chamou a atenção para o papel que os Jesuítas, portugueses ou estrangeiros que passaram por Portugal, tiveram no Japão nos séculos XVI e XVII.

Os primeiros ocidentais a chegar às terras do Sol Nascente foram comerciantes portugueses em 1542-1543, mas os Jesuítas demoraram poucos anos a aparecer nessas paragens, cumprindo o seu propósito de evangelização.

O jesuíta basco S. Francisco Xavier (1506-1552) pertenceu ao primeiro grupo missionário que desembarcou em 1549. Os jesuítas eram então uma ordem muito recente: Xavier tinha integrado o grupo fundador, reunido em Paris em 1534 por Santo Inácio de Loyola (1491-1556).

A Ordem recebeu a confirmação papal em 1540 e, nesse mesmo ano, Xavier e o seu companheiro português Simão Rodrigues (1510-1579), também do grupo fundador, chegaram a Lisboa, tendo o basco embarcado para o Oriente em 1541 e o português viajado até Coimbra, instalando a Companhia de Jesus na cidade universitária.

Foi em 1542 que os  inacianos fundaram  em Coimbra o Colégio de Jesus, que, com o Colégio de S. Antão o Velho, em Lisboa, constituem os colégios mais antigos de todo a vasta rede de escolas jesuítas espalhadas pelo mundo. Os Jesuítas tinham chegado a Portugal a convite do rei D. João III, que foi o primeiro monarca europeu a conceder protecção à nova ordem. Portugal haveria de ser “rampa de lançamento” da Ordem para o mundo. Só do porto de Lisboa se podia chegar da Europa até ao Brasil, à Malaca, à China e ao Japão. Xavier peregrinou onze anos por terras do Oriente, tendo estado na Índia, na China e no Japão, para vir a falecer na China.

Os Jesuítas foram, numa primeira fase, muito bem sucedidos no Japão. Conseguiram aí bastante mais conversões, totalizando cerca de 300.000 almas no auge da cristianização, do que na China. A diferença política, para além de outras culturais, é que no Japão os ocidentais encontraram uma pluralidade de senhores guerreiros, cada um com o seu domínio, ao passo que a China estava dominada pelo imperador em Pequim. Só no início do século XVII, e num movimento bélico ajudado pelas armas de fogo que os europeus introduziram no Japão, se deu a unificação dos vários domínios, afirmando-se um poder central no arquipélago. Essa unificação revelou-se fatal para as pretensões dos evangelizadores, uma vez que os cristãos passaram a ser perseguidos de um modo muitas vezes cruel. Chegou a ser dada ordem de morte a qualquer cristão que fosse encontrado, o que por vezes só acontecia ao fim de prolongada tortura. Ficaram famosos os 26 mártires de Nagasaki, que morreram crucificados em 1597, a maioria franciscanos mas dos quais três eram jesuítas, japoneses conversos que tinham feito votos na Ordem.

Mas antes desse declínio do Cristianismo que culminaria num longo período (cerca de dois séculos) de isolamento do Japão um rico intercâmbio cultural, protagonizado pelos jesuítas e outros missionários, entre o Ocidente e o Oriente. O jesuíta italiano Alessandro Valignano (1539-1606), que foi Visitador das missões do Oriente, defendeu o princípio da "acomodação", que se traduzia na tomada dos costumes orientais, um processo que também deu frutos na Índia (com o padre italiano Robert De Nobili, 1577-1656) e na China (com o padre também italiano Matteo Ricci, 1552-1610).

Foram os missionários portugueses ou estrangeiros que passaram por Portugal que introduziram no Japão, para além de uma cosmovisão do mundo (o aristotelismo, moldado ao cristianismo por S. Tomás de Aquino), instrumentos científicos como os telescópios e os relógios mecânicos e técnicas de medicina. Um dos padres jesuítas que mais se distinguiu nessa troca científica foi Luís de Almeida (1525-1583), que fundou o primeiro hospital ocidental no Japão, na cidade de Oita, antiga Funai (o hospital local tem hoje o seu nome).

Em 1551, S. Francisco Xavier trouxe de Kagoshima, cidade portuária japonesa, para Goa um nativo nipónico, que foi baptizado com o nome de Bernardo, que se tornou em 1553 o primeiro japonês a desembarcar na Europa. Bernardo de Kagoshima (1534-1557), como ficou conhecido, tornou-se noviço da Companhia. Viveu no Colégio de Jesus em Coimbra antes de ser enviado em 1554 para Roma, onde se encontrou com Santo Inácio, o fundador e Superior Geral da Ordem. Regressado a Coimbra acabou por falecer em idade relativamente jovem. Consta que está sepultado na Igreja do Convento de Jesus, a Sé Nova, actual igreja diocesana de Coimbra, repousando o seu corpo na Capela de Santo Inácio de Loyola, do lado esquerdo da nave. Não são muitos os japoneses cristãos, mas alguns vão aparecendo na Sé de Coimbra para orar diante dessa sepultura.

O filme de Scorsese, baseado em factos reais, passa-se muito depois, uns anos antes de 1640, o ano da restauração da independência portuguesa, numa altura em que os cristãos, que não tivessem apostatado, continuavam a ser vítimas de ferozes perseguições. Um dos mais famosos - e uma figura central do filme - é o padre jesuíta Cristóvão Ferreira (c. 1580-1650), que, sob a tortura da suspensão na fossa, abandonou a fé cristã, tomando o nome de Sawano Chuan, para aderir à religião e aos modos de vida japoneses (inclusivamente casando e tendo filhos de uma japonesa). Ferreira, para além dos escritos que deixou contra a fé católica após a sua apostasia, deixou também vários escritos de carácter científico, que abrangiam desde a astronomia e a cosmologia até à medicina.

É ele o tradutor de “Exposição sobre os Céus e a Terra” e o provável autor de um tratado intitulado “Cirurgia dos Bárbaros do Sul” (“Bárbaros do Sul” ou “Nanban” era o nome que os japoneses davam aos europeus e também é hoje o nome de um estilo de arte oriental presente em biombos). Também Ferreira foi, à sua maneira, um intermediário de culturas, ao divulgar no Japão os conhecimentos europeus sobre o mundo e a Natureza. Consta que morreu sob tortura, de novo cristão, mas não há a certeza.

(está errado o local da morte, que foi em Coimbra)


Sobre Cristóvão Ferreira (wiki m inglês por a ficha ser mais completa do que em português)


SOBRE HOMEOPATIA E EFEITO PLACEBO

Entrevista sobre homeopatia e efeito placebo do David Marçal e minha a uma revista popular, a propósito do nosso livro Pipocas com Telemóvel e Outras Histórias de Falsa Ciência, e que nunca chegou a ser publicada

P- Se como dizem no vosso livro a homeopatia é uma fraude, por que é que, na vossa opinião, continuam a ser produzidos e comercializados remédios homeopáticos?

DM- Não somos nós que dizemos, são numerosos autores de rigorosos estudos científicos. A homeopatia está bastante estudada e, quando sujeita aos mesmos critérios de exigência que são usados para aprovar qualquer tratamento convencional, não consegue provar a sua eficácia para além de um vulgar placebo. Se conseguisse, não se falaria de “medicina alternativa” mas pura e simplesmente de medicina. De qualquer modo as consultas e os medicamentos homeopáticos encontam-se  com facilidade no mercado. E não há dúvida que há procura. Apesar da falta de provas científicas, a homeopatia conseguiu construir à sua volta um aura de credibilidade, de várias formas, a começar pela venda de produtos homeopáticos em farmácias convencionais .Nem sempre os legisladores e reguladores actuam em coerência com o melhor conhecimento científico. Por exemplo, não existe nenhum mecanismo automático que faça com que impeçam fraudes do tipo dos produtos homeopáticos (há, de resto, várias outras...) de  serem comercializadas.

2.    P- Segundo escrevem, os comprimidos homeopáticos são feitos de água e açúcar. Podem pôr em perigo a saúde das pessoas, se os tomarem de forma regular e prolongada?

CF- De facto, na maior parte dos casos esses comprimidos não fazem bem nem mal. Mas as pessoas estão a tomar um remédio que pensam ter um efeito fisiológico quando este não o tem. Se a doença for grave, o perigo para a saúde é não a tratar. Por exemplo, se for para uma zona em que a malária é endémica e fizer apenas uma profilaxia homeopática para a malária está a pôr em risco a sua saúde. Esta situação não é hipotética, são conhecidos vários casos, como o do missionário norte-americano Tom Miller, que, em 2004, antes de viajar para a Nigéria, abdicou da profilaxia habitual para a malária e tomou um produto homeopático. Acabou nos cuidados intensivos de um hospital, inconsciente durante sete dias. Sobreviveu, mas não foi graças à homeopatia. Não penso que deve ser limitada exageradamente a liberdade das pessoas, desde que essa liberdade não afecte os outros. Cada um poderá fazer o que quer desde que não incomode os outros. Mas, veja bem, nesse caso o desleixo de uma pessoa foi afectar, de forma desnecessária, o trabalho de muitas outras, que fizeram tudo o que puderam para salvar uma pessoa imprevidente.

3.    P- Por  que é que o efeito placebo aparece associado às Terapêuticas Não Convencionais, sobretudo à Homeopatia?

DM- O efeito placebo, a sensação de melhoria quando se está a ser tratado, acontece em todas as intervenções médicas. No caso da homeopatia, apenas existe o efeito placebo. Não é por acaso que um dos remédios homeopáticos mais populares seja para a gripe, que em condições normais passa sozinha. Por acção do próprio organismo. O remédio homeopático não ajuda embora a pessoa que acredite na eficácia do remédio  pense que sim. Nós, quando do lançamento do nosso livro sobre pseudociência, tomámos uma embalagem inteira de um desses medicamentos e não nos aconteceu absolutamente nada. Não tínhamos gripe. Mas, quer tivéssemos quer não, teria sido contraprudecente ter tomado de uma só vê uma embalagem inteira de um medicamento. Não tivemos qualquer receio porque os medicamentos homeopáticos, pelo princípio que apregoam, são feitos com diluições tão grandes de uma substância supostamente activa que praticamente no “remédio” não existe nada dessa substância.

4.    P- O efeito  placebo pode produzir melhorias clínicas? Nesse caso, poderia ser usado como estratégia terapêutica?

DM- Sim, o efeito placebo consiste precisamente em produzir uma sensação de melhoras, que é subjectiva e transitória. Mas não há nenhuma doença séria que se cure com placebos pela simples razão que não existe neles nenhuma molécula activa que interfira nos mecanismos de doença.  Administrar placebos para pessoas que se queixam de doenças imaginárias ou reais é uma questão ética, que depende das circunstâncias e que deve ser avaliada pelos médicos. Na impossibilidade de outras opções, sem dúvida que um placebo é melhor do que nada.. Mas, havendo a possibilidade de oferecer um tratamento que tenha também um efeito fisiológico comprovado, eticamente será preferível.

CF- Os placebos são usados de forma anónima em testes clínicos para controlar a eficácia dos medicamentos. Como disse, só são aprovados de acordo com critérios médicos internacionais, medicamentos cujo efeito seja superior ao do placebo. O efeito do placebo, apesar de real, é em média pequeno. Por isso, ele é considerado um limite mínimo de eficácia.

MARTIN SCORSESE FALA COM O P. MARTIN SOBRE O FILME "SILÊNCIO" QUE ESTREIA HOJE EM PORTUGAL

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

SOBRE O ROMANCE "SILÊNCIO" DE SHUSAKU ENDO

O

O Padre Adelino Ascenso, Superior Geral dos Missionários da Boa Nova, fez uma tese sobre o romance "Silêncio" de Shusaku Endo, que serve de base ao filme com o mesmo nome de Martin Scorsese, que estreia amanhã.  Deu uma entrevista há dias ao jornalista Paulo Rocha do programa "Fé dos Homens" que passa na RTP da responsabilidade da Agência Ecclesia. A tese doutoral do Padre Ascenso, defendida na Universidade Gregoriana de Roma, está aqui:

https://books.google.pt/books?id=AEO6njtc9JsC&printsec=frontcover&hl=pt-PT&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false

Eu próprio dei hoje uma entrevista a esse programa sobre o referido filme e, mais engeral, sobre o livro "Jesuítas, Construtores da Globalização", CTT, 2016,  de José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais. O filme passará na RTP na próxima segunda-feira pelas 15h.

À procura de espécies crípticas

      
Texto recebido do biólogo José Cerca de Oliveira e colegas no Museu de História Natural de Oslo (na figura):

A aplicação de métodos de sequenciamento de ADN revolucionou a biologia. Ora, numa das suas aplicações mais surpreendentes, estes permitiram encontrar várias espécies dentro de espécies tradicionalmente definidas – equivalente ao príncipio das matrioscas, as famosas bonecas russas - as espécies crípticas.

Estas espécies demonstram, portanto, elevados níveis de divergência genética entre si, mas, surpreendentemente, não se verificam diferenças morfológicas (morfos = forma). Assim foi cunhado o termo ‘espécies crípticas’ (Grego Kryptos = escondido). A ocorrência das espécies crípticas ressalva a necessidade de um bom sistema de organização e classificação dos seres vivos, demonstrando que negligência na catalogação das espécies pode incorrer em problemas tanto a nível do conhecimento biológico das espécies (história evolutiva, ocupação de espaço ecológico, perfil biogeográfico) como também pode ter impactos económicos e na nossa saúde. Ainda assim, nem todos os cientistas estão de acordo com as definições propostas de delineamento de espécies crípticas.

O mosquito Anopheles gambiae é conhecido pelas piores razões: este mosquito é o vector que transmite o parasita protozoário da malária, responsável por milhares de mortes anuais. Recentemente descobriu-se que esta espécie é um conjunto de espécies crípticas. Morfologicamente idênticas, estas espécies parecem ser distintas pela sua preferência de habitat (por exemplo, no uso de poças de água ou campos de arroz no crescimento das larvas). Por um lado, esta descoberta revelou que nem todas as espécies são perigosas para o ser humano, por outro lado, permite a concentração de esforços nas espécies que nos atacam - informação que pode fazer diferença a salvar vidas. No combate à fome descobriu-se que o hemiptero Bemisia tabaci ataca algumas plantas de interesse económico como o algodão, melão, brócolo, repolho e a abóbora. Estudos genéticos demonstraram que esta espécie é composta por 28 espécies diferentes e esta informação abriu portas à identificação e delimitação destas espécies, revelando que distantas espécies do complexo têm diferentes preferências (umas gostam mais de repolho, outras mais de melão, …).

Contudo isto aparenta ser apenas a ponta do iceberg. O termo “espécie críptica” tem ganho popularidade nas últimas décadas e têm-se descoberto espécies crípticas em diversos ramos da árvore biológica. Um dos problemas é o trabalho exigente, especializado e laborioso que envolve a descrição de espécies e que acaba por ser descurado facilmente - muitas das espécies crípticas não chegam a ser formalmente incluídas no sistema de classificação e outras necessitam de verificação e confirmação.

Recentemente descobriram-se 16 espécies dentro do peixe Schindleria praematura. Dez foram encontradas no mesmo local (simpatria), levantando as seguintes questões aos cientistas: Como é que estas espécies evoluíram? Como é que se distribuem no espaço ecológico? Competem por recursos, habitat ou espaço? Será que evoluíram no mesmo local (simpatria) ou em locais diferentes (alopatria) tendo-se juntado mais tarde? Como se mantêm enquanto espécies diferentes?

No meio destas questões, há uma questão que sobressai: como é que estas espécies se mantêm idênticas na presença de processos que, à partida, geram diversidade tais como selecção natural e deriva genética? Possivelmente através de limitações de plasticidade genética ou plasticidade de desenvolvimento; potenciais vantagens em preservar uma certa forma; mudanças a nível fisiológico; ou, em certos casos, tratam-se apenas de espécies irmãs: espécies que se apenas se separaram recentemente e cujas diferenças se acumularão com o passar do tempo.

Com as alterações climáticas, poluição, fragmentação e destruição dos ecossistemas e poluição acentua-se a necessidade de entendermos a biodiversidade e ponderar em como a preservar. Por um lado, a ocorrência de espécies crípticas pode esconder uma parte substancial da biodiversidade mas por outro lado, poderá levar a falhas na conservação de espécies. Porém, nem tudo são favas contadas. Nem todos os cientistas concordam com os termos aplicados até então. O que é necessário para classificar uma espécie de críptica? Qual é o grau de divergência genética necessária para serem classificadas enquanto espécies diferentes? E quão semelhantes devem ser em aparência para serem consideradas crípticas?

No Museu de História Natural de Oslo temos debatido estes temas.

José Cerca de Oliveira
Siri Birkeland
Sonja Kistenich

Trude Magnussen

MANIFESTO para uma ciência com futuro e direitos para todos


Assinei este manifesto em favor da ciência e do emprego científico:

http://www.peticaopublica.com/pview.aspx?pi=ManifestoCiencia

O manifesto está aberto à subscrição de todos.

O 4.º Congresso dos Jornalistas e a Ordem dos Jornalistas.



Meu artigo de opinião publicado ontem  no "Diário as Beiras":

“A história é émula do tempo, repositório de factos, 
testemunha do passado, exemplo do presente, 
advertência do futuro”. 
Miguel Cervantes.

Na altura em que escrevo este texto, decorre o segundo dia do “4.º Congresso de Jornalistas”, com a participação de mais de 700 congressistas.

Pacífica é hoje, passados tempos que residem em nossa lembrança, a necessidade da formação académica de nível superior dos jornalistas, repudiada pelos próprios profissionais que se opunham a esta medida sob o dislate de que se nasce jornalista como se nasce poeta. Recordo, a propósito, o legado de Joseph Pulitzer (1847-1911) deixado para os vindouros: “A única profissão para a qual o homem já nasce preparado e prescinde de escola - é a de idiota”!

Atrevo-me a pensar que neste congresso virá novamente à baila a polémica criação de uma Ordem dos Jornalistas (já diziam os latinos: quod capite, tot sensu) em que rebusco um debate, passado na TV2, intitulado “Clube dos Jornalistas”, com a participação de dois jornalistas e da ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas, Diana Andriga. Neste confronto, manifestou-se esta dirigente sindical contra a criação de uma Ordem dos Jornalistas, em oposição às teses favoráveis de Octávio Ribeiro, subdirector do “Correio da Manhã”, e Eduardo Cintra Torres, crítico de televisão do jornal “Público”. Em ocasião diferente, manifestou-se, igualmente, defensor de uma Ordem dos Jornalistas o falecido e antigo director do “Diário de Notícias”, Bettencourt Resendes.

Tempos depois, Vital Moreira, com sustento na tese de  que o referendo sobre esta matéria, realizado, anos atrás, rejeitava esta criação, e, por acréscimo escudado no peso institucional de catedrático de  Direito Constitucional, declarava publicamente: “Sempre me manifestei contra a criação de uma ordem profissional [dos jornalistas] - aliás, rejeitada num referendo à classe realizado há mais de uma década” (“Público”, 05/07//2005).

Por seu lado, em reformulação do argumento do referendo, havido por Vital Moreira com vaca sagrada, não hesita Miguel Sousa Tavares, licenciado em Direito e jornalista de profissão, em retractar-se: “Opus-me no referendo feito à classe sobre a criação de uma Ordem dos Jornalistas. Hoje, revejo a minha posição: é urgente a criação de uma Ordem” (“Público”, 06/03/98).

Salvo erro, em 25 de Julho de 2005, em artigo opinião, José Manuel Fernandes, director do “Público”, perante os inúmeros desafios que se levantavam  ao exercício do jornalismo - e a que o respectivo sindicato, sob pena de exorbitar nas suas funções, não podia dar resposta, tecia pertinentes considerações em defesa de “uma associação de filiação obrigatória para todos os jornalista”. E, com isso, interrogava-se e aos leitores: “Uma Ordem?”

Ademais, insurgia-se ele contra o facto de à Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas, presidida por um juiz e com representação dos jornalistas e associações empresariais, poder ser delegada funções do foro de uma ordem profissional

Sem sombra de dúvida, ao arrepio dos seus detractores - muitos deles oriundos da própria classe - e a incorporação da legião de indecisos, mais dia menos dia, o pesado fardo da dificuldade na criação de uma Ordem dos Jornalistas será alijado, deixando de poder ser passada a imagem de que a preocupação principal da classe reside em questões do foro laboral, como sejam desemprego e pequenos salários. A questão está só em saber quando e com que prejuízo para os seus actuais defensores e para a exigência ética da nobre profissão de jornalista. 

Quer se queira quer não, esta situação corre o risco de configurar um atestado de inépcia, ou simples falta de interesse, dos jornalistas em se baterem, de fileiras cerradas, por uma organização profissional de direito público com enormes responsabilidades de (in)formação em sectores de indiscutível importância social, económica e política.

FUTURÁLIA 2017



Como membro do Conselho Científica da Futurália, venho divulgar o banner dessa feira.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

CLAVIUS BIBLIOTHECARUM


Catálogo das bibliotecas das casas religiosas portuguesas (mosteiros, conventos, etc.) organizado por Luana Giurgevich e Henrique Leitão.

http://clavisbibliothecarum.bnportugal.pt/

Também existe em forma de livro.

TRAILER DE "SILÊNCIO" EM PORTUGUÊS DESENHADO PELO P. NUNO BRANCO


http://nit.pt/coolt/cinema/trailer-silencio-criado-portugues

EPISÓDIOS NA VIDA DE UM POLIO

Add caption
Vou apresentar no dia 15 de Fevereiro, pelas 15h,
no Museu da Ciência de Coimbra o livro "Episódios da vida de um Polio", de Ilídio Barbosa Pereira, seguindo-se um debate sobre o tema da poliomelite.

http://www.museudaciencia.org/index.php?module=events&option=&action=&id=738

Está patente naquele museu uma exposição sobre o assunto, "Memórias Feridas Corpos Revelados" com extraordinárias fotos que podem ser consideradas chocantes.

Na imagem: A exposição na Universidade de Leon.

Portugueses no Japão

Caixa que surge no livro "Jesuítas Construtores da Globalização" , de José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais, CTT, 2016, um livro tornado actual pela próxima estreia de "Silêncio", o filme de Martin Scorsese:

"Os portugueses chegaram ao Japão em 1542, ini­ciando-se o labor missionário nessa região passados sete anos, quando chegou Francisco Xavier. Os Je­suítas, na sua maioria portugueses, foram os protago­nistas dessa tarefa de missionação que, numa primeira fase, conheceu um êxito impressionante. Chegou a ha­ver mais de trezentos mil cristãos no Japão. O cato­licismo acabou por ser severamente reprimido em 1587 e, de forma sistemática, a partir de 1614, no processo de unificação política daquele país. As perseguições foram terríveis: 26 cristãos, entre os quais três pa­dres jesuítas, foram crucificados em Nagasaki, razão que mais tarde foi considerada suficiente para a sua canonização. Muitos cristãos, cerca de sessenta mil, permaneceram depois com práticas na clandestinida­de – foram os chamados «cristãos escondidos». Só no final do século XIX voltou a haver nas ilhas nipóni­cas tolerância para com os cristãos.

Os Jesuítas levaram a Revolução Científica ao Ja­pão, incluindo o uso do telescópio. Foram também os Jesuítas que introduziram nessas ilhas a medicina oci­dental, criando vários hospitais. Distinguiu-se nessa atividade o padre Luís de Almeida (1525-1586), o pri­meiro português a chegar a Nagasaki (em 1567), que se apoiou no modelo das misericórdias portuguesas. Hoje existe no Japão, na cidade de Oita, um hospital com o nome de Luís de Almeida."



Pormenor dos biombos Namban Bárbaros do Sul (1593)



Mártires de Nagasáqui, escola de Cuzco (peru). Da peerseguição aos cristãos resultaram, ennrre 1597 e 1637, duzentos  e cinco mártires.

 

"LOGO À NOITE VAI ESTAR FRIO"


No próxima sábado, vou apresentar em Coimbra (casa da Escrita) o livro mais recente de António Canteiro baseado na biografia de António Nobre.