quinta-feira, 23 de março de 2017

Algumas novidades de Março da Gradiva


Informação recebida da editora:


Lawrence M. Krauss
Um Universo Vindo do Nada
Porque há algo em vez de nada?
Posfácio de Richard Dawkins.

De onde veio o Universo? O que havia antes? Como se não bastasse a análise científica da origem do mundo para tornar esta obra atractiva, também a clareza das explicações e o estilo irónico e estimulante do autor conquistam os leitores. As várias edições têm suscitado debates um pouco por todo o lado. E não é para menos. Apresentando provas convincentes sobre como o nosso cosmos complexo evoluiu, o autor abre a porta para antever o futuro.

«Brilhante.»
Ian McEwan
Colecção «Ciência Aberta», n.º 219, 256 pp., €16,50 | €14,85
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Bernard Suits
A Cigarra Filosófca
A vida é um jogo?
Neste livro sobre a natureza dos jogos e o próprio sentido da vida, Suits demonstra que se pode ser tão jocoso quanto sagaz. Em meados do século XX, o filósofo Ludwig Wittgenstein afirmou que os jogos são indefiníveis. Filosoficamente profundo e verdadeiramente divertido, Suits discorda e sustenta de modo brilhante a sua tese: não só os jogos podem ser explícita e significativamente definidos, como jogar é uma componente fundamental do ideal de existência humana. E se a cigarra tivesse razão?

«Este livro único deixou-me intelectualmente maravilhado.»

Simon Blackburn, Universidade de Cambridge
Colecção «Filosofia Aberta», n.º 29, 312 pp., €19,00 | €17,10
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Umberto Eco
A Ilha do Dia Antes
Verão de 1643. Roberto de la Grive naufraga nos Mares do Sul e depara-se com uma ilha que não consegue alcançar. O maravilhamento junta-se à suspeita de que por lá pairam múltiplas ameaças. Umberto Eco, magistral contador de histórias, cria uma viagem de aventura e conhecimento, construindo um fascinante enredo que entrelaça a realidade com a ficção de um modo ímpar. Aqui também não faltam o bem conhecido humor e a reconhecida erudição do autor, conjugados numa das suas mais surpreendentes obras.
Colecção «Fora de Colecção», n.º 487, 472 pp., €19,90 | €17,91
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Prefácio de Lawrence Krauss ao seu livro "Um Universo vindo do nada"


Acaba de sair na Gradiva um livro que tem gerado polémica em todo o mundo. "Um Universo vindo do nada" do astrofísico Lawrence Krauss. Transcrevo o início do prefácio original escrito pelo próprio autor (o posfácio é de Richar Dawkins):

A bem da transparência, e logo no início, devo admitir que não defendo a ideia de que a criação implica um criador, ideia que está na base de todas as religiões do mundo. Todos os dias surgem, subitamente, objectos belos e miraculosos, de flocos de neve numa manhã fria de Inverno a arco‑íris depois da chuva num final de tarde de Verão. No entanto, ninguém, a não ser os fundamentalistas mais acérrimos, sugeriria que cada um destes objectos é criado amorosa e meticulosamente e, mais importante, com um certo propósito, por uma inteligência divina. De facto, muitos leigos, assim como cientistas, troçam da nossa capacidade de explicar flocos de neve e arco‑íris com leis da física simples e elegantes.

É claro que podemos perguntar, e muitos fazem‑no, «De onde vêm as leis da física?», e, de forma mais sugestiva, «Quem criou estas leis?» Mesmo quando conseguimos responder a esta primeira questão, normalmente perguntam‑nos a seguir, «Mas donde é que isso veio?» ou «Quem é que criou isso?» e assim por diante.

Em última análise, muitas pessoas razoáveis são atraídas para a Causa Primeira, como diriam Platão, São Tomás de Aquino ou a Igreja Católica Romana dos dias de hoje, e assim supor algum ser divino: um criador de tudo o que existe e de tudo o que virá a existir, alguém ou algo eterno e omnipresente.

No entanto, a declaração de uma Causa Primeira ainda deixa a questão seguinte em aberto: «Quem criou o criador?» Afinal, qual é a diferença entre argumentar a favor de um criador eterno e a favor de um Universo eterno sem criador?

Estes argumentos lembram‑me sempre a famosa história de um especialista que dava uma aula sobre
as origens do Universo (por vezes identificado como Bertrand Russell, outras vezes como William James), e foi desafiado por uma mulher que acreditava que o mundo está assente numa tartaruga gigante que, por sua vez, é suportada por outra, e assim sucessivamente... «até ao fim!» Uma regressão infinita de uma qualquer força criativa que se gera a si própria, mesmo uma força imaginada maior do que tartarugas, não nos aproxima do que quer que seja que gere o Universo. No entanto, esta metáfora da regressão infinita poderá estar mais próxima do processo real pelo qual o Universo foi criado do que a explicação de um único criador.

Definir a questão argumentando que a última responsabilidade é de Deus poderá parecer que evita o
problema da regressão infinita, mas, aqui, invoco o meu mantra: o Universo é como é, quer gostemos ou não. A existência ou inexistência de um criador não depende dos nossos desejos. Um mundo sem Deus ou propósito pode parecer duro ou inútil, mas não é, por si só, condição necessária para que Deus exista.

Do mesmo modo, as nossas mentes poderão não ser capazes de compreender facilmente infinitos (embora a matemática, um produto das nossas mentes, lide facilmente com eles), mas não nos dizem que eles não existem. O nosso universo poderia ser infinito em espaço e em tempo. Ou, como Richard Feynman disse uma vez, as leis da física poderiam ser uma cebola com camadas infinitas, com novas leis à medida que exploramos novas escalas. Simplesmente não sabemos!

Durante mais de dois mil anos, a questão «Porque existe algo em vez de nada?» tem sido apresentada como um desafio à proposição de que o nosso Universo — que contém um vasto complexo de estrelas, galáxias, seres humanos e sabe‑se lá que mais — poderá ter surgido sem um desígnio, uma intenção ou um propósito. Embora normalmente esta questão seja de teor filosófico ou religioso, é, primeiro e principalmente, uma questão sobre o mundo natural, e, logo, o local adequado para a tentar resolver é, em primeira instância e principalmente, a ciência.

O objectivo deste livro é simples. Quero mostrar como a ciência moderna, nas suas diversas vertentes, pode abordar e aborda a questão de saber porque há algo em vez de nada: as respostas que se têm obtido — desde observações experimentais assombrosamente belas a teorias que subjazem a boa parte da física moderna — sugerem que o facto de algo surgir do nada não é um problema. Com efeito, algo vindo do nada deve ter sido condição necessária para que o Universo surgisse. Adicionalmente, tudo indica que foi assim que o nosso Universo poderá ter surgido.

Sublinho aqui a palavra poderá, porque é possível que nunca venhamos a ter informações empíricas suficientes para resolver esta questão definitivamente. Mas o facto de um universo vindo do nada ser sequer plausível é certamente significativo, pelo menos para mim.

Antes de prosseguir, quero dedicar algumas palavras à noção de «nada» — um tema a que regressarei adiante com mais profundidade, pois aprendi que, quando se discute esta questão em fóruns públicos, nada perturba mais os filósofos e teólogos que discordam de mim do que a noção de que eu, como cientista, não compreendo verdadeiramente [o] «nada.» (Estou tentado a contrapor aqui que os teólogos são especialistas em nada.)

O «nada», insistem, não é nenhuma das coisas que eu discuto. Nada é «não‑ser», num qualquer sentido vago e mal definido. Isto lembra‑me os meus próprios esforços para definir «design inteligente», quando comecei a ter debates com criacionistas, expressão que, ficou claro,
não possui uma definição distinta, excepto para dizer o que não é. «Design inteligente» é simplesmente uma expressão que «põe tudo no mesmo saco», usado para contrapor à evolução. Da mesma forma, alguns filósofos e muitos teólogos definem e redefinem «nada» como não sendo qualquer uma das versões do nada que os cientistas descrevem actualmente.

Mas, na minha opinião, é aí que reside a ruína intelectual de muita da teologia e de alguma da filosofia moderna. Pois «nada» é seguramente tão físico como «algo», especialmente se for definido como a «ausência de algo». Cabe‑nos então compreender, de forma precisa, a natureza física de ambas as quantidades. E sem ciência qualquer definição não passa de meras palavras.

Há um século, se alguém descrevesse «nada» como o espaço vazio, sem qualquer entidade material real, talvez não enfrentasse grande oposição. Mas os resultados do século passado ensinaram‑nos que o espaço vazio está, na verdade, longe do nada intacto que supusemos antes de percebermos melhor como a Natureza funciona. Agora, os críticos religiosos dizem‑me que eu não me posso referir ao espaço vazio como «nada», mas antes como um «vácuo quântico», para distingui‑lo do «nada» idealizado dos filósofos ou teólogos.

Assim seja. Mas, e se estivermos dispostos a descrever o «nada» como a ausência do próprio espaço e do próprio tempo? Será suficiente? Mais uma vez, suspeito que já tenha sido... há algum tempo. Mas, como irei explicar, descobrimos que o espaço e o tempo podem, eles próprios, surgir espontaneamente, pelo que agora dizem‑nos que mesmo este «nada» não é realmente o nada que nos interessa. E dizem‑nos que a fuga do nada «real» requer o divino, sendo assim definido por decreto como «aquilo a partir do qual apenas Deus pode criar algo».

Tem sido sugerido por vários indivíduos com quem tenho debatido a questão que, se existe o «potencial» para criar algo, então não se trata de um estado de verdadeiro nada. E ter leis da Natureza que dão esse potencial afasta‑nos com toda a certeza do verdadeiro domínio do não‑ser. Mas depois, se argumento que talvez as próprias leis tenham também surgido espontaneamente, como poderá ter sido o caso, então isso não é suficiente, porque qualquer que seja o sistema em que as leis tenham surgido não se trata de um verdadeiro nada.

Tartarugas por aí abaixo? Não creio. Mas as tartarugas são apelativas porque a ciência está a mudar drasticamente as regras do jogo, deixando algumas pessoas desconfortáveis. É claro que essa é uma das finalidades da ciência (ou «filosofia natural», no tempo de Sócrates). O desconforto significa que estamos no limiar de novas descobertas. E certamente que invocar «Deus» para evitar a pergunta «como» é simplesmente preguiça intelectual. Afinal, se não existisse potencial para criar, Deus não poderia ter criado nada. Seria malabarismo semântico afirmar que a potencial regressão infinita é evitada porque Deus existe fora da Natureza e, portanto, o próprio «potencial» para a existência não é uma parte do nada a partir do qual surgiu a existência.

O meu verdadeiro objectivo aqui é demonstrar que a ciência tem, de facto, alterado o panorama, substituindo estes debates abstractos e inúteis sobre a natureza do nada por esforços úteis e operacionais para descrever o modo como o nosso Universo poderia realmente ter surgido. Vou explicar também as possíveis implicações desta origem no nosso presente e futuro.

Isto reflecte um facto muito importante. A religião e a teologia têm sido, no mínimo, irrelevantes, quando se trata de compreender o modo como o nosso Universo evolui. Geralmente, tendem a turvar as águas, por exemplo, focando‑se em questões como o nada sem dar uma definição do termo baseada em provas empíricas. Embora ainda não compreendamos inteiramente a origem do nosso Universo, nada leva a esperar que as coisas mudem neste aspecto. Adicionalmente, espero
que o mesmo se aplique, em última análise, à nossa compreensão de áreas que a religião considera como seu território exclusivo, como a moral humana.

A ciência tem sido eficaz em promover a nossa compreensão da Natureza porque o ethos científico se baseia em três princípios‑chave: (1) seguir as provas onde quer que estas levem; (2) se dispomos de uma teoria, temos de estar dispostos tanto a tentar provar que está errada como que está certa; (3) o derradeiro árbitro da verdade é a experimentação, não o conforto que retiramos das nossas crenças a priori, nem a beleza ou elegância que atribuímos aos nossos modelos teóricos.

Os resultados das experiências que descrevo aqui não são só oportunos, são também inesperados. A tapeçaria que a ciência tece ao descrever a evolução do nosso Universo é consideravelmente mais rica e fascinante do que quaisquer imagens reveladoras ou histórias imaginativas que os seres humanos tenham inventado. A Natureza apresenta surpresas que ultrapassam consideravelmente as suposições criadas pela imaginação humana.

Ao longo das últimas duas décadas, uma excitante sucessão de avanços na cosmologia, teoria das partículas e gravitação mudou completamente a forma como vemos o Universo, com implicações surpreendentes e profundas na nossa compreensão das suas origens, bem como do seu futuro. Portanto, nada poderia ser mais interessante como tema de escrita, passe o trocadilho.

A verdadeira inspiração para este livro não vem tanto de um desejo de dissipar mitos ou atacar crenças, mas do meu desejo de celebrar o conhecimento e o Universo absolutamente surpreendente e fascinante que o nosso se revelou ser.

A nossa busca leva‑nos a fazer uma visita‑relâmpago aos confins do Universo em expansão, desde os primeiros momentos do Big Bang até ao futuro distante, e inclui talvez a mais surpreendente descoberta em física do século passado.

Com efeito, a motivação imediata para escrever este livro agora é uma profunda descoberta sobre o Universo que tem impulsionado a minha própria investigação científica nas últimas três décadas e que resultou na conclusão surpreendente de que a maior parte da energia do Universo reside numa qualquer forma misteriosa, ainda inexplicável, que permeia todo o espaço vazio. Não é um eufemismo dizer que esta descoberta mudou o panorama da cosmologia moderna.

Por um lado, esta descoberta promoveu um apoio admirável e novo à ideia de que o nosso Universo
surgiu precisamente do nada. Incitou‑nos, igualmente, a repensar uma série de hipóteses sobre os processos que poderiam reger a sua evolução e, em última análise, a questionar se as próprias leis da Natureza são verdadeiramente fundamentais. Por sua vez, tudo isto tende a tornar a questão de saber «porque há algo em vez de nada» menos impressionante, se não mesmo completamente simples, como espero que seja a minha descrição.

(...)

LAWRENCE M. KRAUS

Prefácio a "O Abandono de Deus", de Tomás Halík e Anselm Gruen


Meu Prefácio a O Abandono de Deus, que acaba de sair nas Edições Paulinas: 

Embora não seja entendido em teologia, considero o padre checo Tomás Halík um dos maiores teólogos contemporâneos. Pelo menos é o autor que, na minha modesta opinião,  mostra maior capacidade para se dirigir, usando uma linguagem compreensível, a uma audiência vasta e variada, incluindo tanto crentes como não crentes.  Nascido no pós guerra, em 1948, no seio de uma família checa sem prática religiosa, no tempo em que o ateísmo era “religião oficial” na Checoslováquia, ele próprio tem a experiência da transição de não crente a crente católico. Para isso contribuíram leituras do escritor inglês, também ele convertido ao catolicismo, G. K. Chesterton. O que o atraiu no catolicismo, confessa Halík, foi ela ser a “religião do paradoxo”, tal como transparece em autores como Santo Agostinho (um outro convertido), Blaise Pascal, Soren Kierkgaard, G. K. Chesterton ou Graham Greene. Halík foi ordenado padre clandestinamente na Igreja Subterrânea do Leste europeu, mas hoje, após a queda do muro de Berlim, é professor de Sociologia e de Teologia na Universidade Charles em Praga, para além de capelão universitário. Recebeu vários prémios e distinções, como recentemente o grau de doutor honoris causa na Universidade de Oxford, no Reino Unido, juntamente com, entre outros, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar e o economista americano Paul Krugman.

Chesterton escreveu sobre a conversão: “Esta é uma das mais comuns e enganadoras ilusões acerca do que acontece a um convertido. De modo atabalhoado, as pessoas confundem o testemunho normal dos convertidos acerca de terem encontrado a paz moral com a ideia de terem atingido o repouso mental, no sentido em que o repouso tem de inacção... Porém, tornar-se católico não é deixar de pensar, mas antes aprender a pensar.” Pode dizer-se que a teologia de Halík é um bom exemplo do pensamento activo, ao contrário de muita teologia que parece pensamento passivo (cito de novo Chesterton, “a teologia não passa do pensamento aplicado à religião”). Pensar, a respeito da crença em Deus ou da sua falta, não pode deixar de ser um processo multifacetado e de enorme complexidade, onde o paradoxo acaba por ser uma solução inescapável. Neste livro, na senda de outros seus livros publicados com merecido êxito em português (Paciência com Deus, A Noite do Confessor, O meu Deus é um Deus ferido e Quero que Tu sejas!, todos eles editados entre nós pela Editora Paulinas), Halík fala da falta de crença – o ateísmo, ao qual podemos associar o agnosticismo - de um modo paradoxal. Trata-se de um pensamento que provoca, que nos faz pensar: para ele, a crença enriquece-se com a descrença, assim como a descrença se enriquece com a crença. Para ele, uma pessoa poderá ser, em graus variáveis de indivíduo para indivíduo e no mesmo indivíduo com o decurso do tempo, simultaneamente crente e descrente. Quer dizer não há crentes e não crentes, há simplesmente pessoas.

Anselm Gruen, por seu lado, é um monge beneditino que se tornou um dos teólogos actuais mais conhecidos em todo o mundo. Nascido em 1945 entrou aos 19 anos na abadia de  Münsterschwarzach, perto de Wuerzburgo, na Alemanha, onde ainda hoje reside. Ao contrário de Halík, a sua família era religiosa, podendo ter sido influenciado por um tio padre e duas tias freiras, todos eles beneditinos. Estudou Filosofia, Economia e Teologia, tendo obtido um doutoramento nesta disciplina sob a orientação do famoso jesuíta alemão Karl Rahner. Em numerosos livros, cursos e palestras ganhou fama de excelente comunicador. Tem o dom da palavra!  Um bom indicador é o facto de dezenas dos seus livros estarem traduzidos em 35 línguas por esse mundo fora. Em Portugal (na Editora Paulinas, saíram até agora duas dezenas de obras, incluindo Deus, Quem és Tu?, O Que Vem Depois da Morte?, Que Fiz eu para Merecer Isto? e O Livro das Respostas, o que não passa de uma pequena fracção dos seus mais de trezentos livros).  Mais do que um pregador católico, é  um conselheiro espiritual que consegue ultrapassar as fronteiras da sua religião. Talvez isso explique que, em certos círculos católicos, as suas posições, designadas por “humanismo transcendental”, sejam vistas com alguma desconfiança.

Winfried  Norhoff, nascido em 1951, estudou Germânicas e Teologia na Universidade de Tuebingen para se tornar jornalista especializado em temas religiosos e depois editor e autor nestes temas. É dele o mérito de reunir duas figuras tão notáveis da teologia contemporânea, cujos textos sobre o teísmo e o ateísmo se intercalam aqui para  desembocarem num diálogo entre os dois.

Diga-se desde já que existe um grande acordo entre os dois autores principais sobre a relevância e significado do ateísmo no quadro de um catolicismo aberto à realidade de hoje que os dois representam. Partindo de experiências pessoais bastante distintas, ambos pugnam por uma abertura da Igreja aos descrentes, isto é, aos mais descrentes do que aqueles que se reconhecem na Igreja. Os mais crentes e os mais descrentes ganham em falarem entre si. O subtítulo esclarece quanto à intenção comum:  “Quando a crença e a descrença se abraçam.”

 Hálik começa por analisar o que significa ateísmo: a-teísmo = recusa do teísmo. Mas pergunta ele logo de início: que Deus se está a recusar? Para o padre checo não há dúvida de que existem ideias de Deus perfeitamente recusáveis e que algumas dessas ideias estão ainda hoje presente no interior da Igreja. Para ele é Deus mistério, o que implica evidentemente procura, pelo que as certezas acerca de Deus poderão ser obstáculos à verdadeira religião. Halík não receia não só ler com atenção como tentar perceber os maiores descrentes. Parte até do famoso texto do louco de  A Gaia Ciência de Friedrich Nietzsche, escrita entre 1881 e 1887, que anuncia de um modo poético mas imperativo a “morte de Deus”:  

“O louco saltou para o meio deles e trespassou-os com o olhar. ‘Para onde foi Deus?’, exclamou, ‘é o que eu lhes vou dizer. Matámo-lo – vocês e eu! Somos nós, nós todos, que somos os seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos esvaziar o mar? Quem nos deu uma esponja para apagar o horizonte inteiro? Que fizemos nós quando desprendemos a corrente que ligava esta terra ao Sol? Para onde vai ela agora? Para onde vamos nós próprios? Longe de todos os sóis?  Não estaremos incessantemente a cair? Para diante, para trás, para o lado, para todos lados? Haverá ainda um acima, um abaixo? Não estaremos errando  através de um vazio infinito? Não sentiremos na face o sopro do vazio? Não fará mais frio? Não aparecem sempre noites, cada vez mais noites? Não será preciso acender  os candeeiros logo de manhã? Não ouvimos ainda nada do barulho que fazem os coveiros que enterram Deus?

Nietzsche retomou o tema da morte de Deus em Assim falava Zaratustra e em Anti-Cristo. Ao contrário do que é vox populi no mundo cristão, para Halík o filósofo alemão que declarou o óbito da divindade pode ser  uma luz para os crentes em vez de ser um porta-voz das trevas: “Quando Nietzsche surge como um crítico do cristianismo, essa crítica pode ser muito útil aos cristãos; quando Nietzsche se revela um inimigo do cristianismo, então os cristãos devem alegrar-se por terem um tal inimigo, um inimigo que perturba e faz pensar”.  Num discurso que proferiu em 2016 na Capela da Universidade de Coimbra, Halik estabeleceu mesmo um paralelo entre Nietzsche e a sua contemporânea Teresa de Lisieux, a freira carmelita francesa mais conhecida entre nós por Santa Teresinha do Menino Jesus. Tanto Nietzsche, que morreu louco tal e qual o seu personagem, como Santa Teresinha viraram as costas a um tempo que, do ponto de vist5ra religioso, se caracterizou pela ênfase no pecado e na piedade. E, lembrou Halík em Coimbra (relembrando-o neste livro), Santa Teresinha passou no período final da sua vida, quando estava atormentada pela tuberculose, pela dura experiência da “noite escura da alma” (a expressão é do poeta carmelita espanhol S. João da Cruz), que consistiu em imaginar-se a partilhar a mesa e o pão com os descrentes, ela própria descrente não em Deus mas na vida eterna concedida por Deus. Houve, portanto, momentos de íntima solidariedade da crente com os descrentes. Declarou a mística, pouco antes de morrer aos 24 anos: O meu Céu é sorrir a esse Deus que eu adoro, quando Ele se quer esconder para testar a minha fé".  Para Halík o combate entre crença e descrença “não é o combate entre duas equipas equipadas com camisolas de cores diferentes, mas sim e frequentemente um diálogo ou um conflito dentro de um coração ou espírito humano.” Isto porque, diz ele, o mundo e a vida são ambivalentes e polifacetados”. Modernamente, é conhecido o caso de Madre Teresa de Calcutá, a freira albanesa que fundou a Congregação das Missionárias da Caridade, que, sabe-se hoje, foi assediada pela descrença ao longo de mais de quatro décadas. Declarou ela:

"Onde está minha fé? Mesmo lá no fundo ... não há nada, mas vazio e escuridão... Se há Deus, por favor perdoa-me. Quando tento levantar os meus pensamentos para o Céu,  há um vazio tão convincente de que esses mesmos pensamentos regressam como facas afiadas e ferem a minha alma."

Essas dúvidas não impediram, contudo, a sua subida aos altares…

Gruen parte não de Nietzsche mas do filósofo alemão igualmente oitocentista Ludwig Feuerbach, para quem a ideia de Deus não passaria de uma “projecção humana (o médico austríaco Sigmund Freud diria mais quando falou de uma “ilusão humana”). Mas concorda no essencial com  Halík, como se deprende da sua afirmação: “Tenho que estar consciente de que no meu coração existem sempre dois pólos: crença e descrença.” Para ele, assim como para o seu mestre Rahner, as provas clássicas da existência de Deus não poderão nunca convencer um ateu. Para Rahner, Deus é um “mistério indescritível e incompreensível”. A crença é atingida por meio de uma experiência interior, não do tipo lógico-racional, mas de um tipo assaz diferente ao qual a teologia chama  graça, um dom que pode ser inato ou adquirido. Que Deus está para lá da razão ficou claro após Santo Agostinho ter escrito: “Se compreendeis não é Deus”.

Gruen cita o filósofo francês ateu de nossos dias André Comte-Sponville, “o ateu pode renunciar a Deus, mas não à espiritualidade”, pelo que existe uma espiritualidade sem Deus. O homem, para esse filósofo, é  “finito, aberto ao infinito”, sendo a espiritualidade precisamente essa abertura ao infinito. Faltará muito pouco ao ateu para chegar a Deus, parece que apenas o nome de Deus. Claro que a questão não é assim tão simples, pois Deus não é uma coisa, nem uma pessoa semelhante ao ser humano, apesar de, na Bíblia, estar escrito que o homem foi feito “à imagem e semelhança de Deus”. Há várias ideias de Deus para diferentes crentes. E algumas afastam-se bastante do ser humano. Para Albert Einstein, o físico nascido na Alemanha que representa os mais altos cumes do pensamento científico no século XX, não existia um Deus pessoal, capaz de falar aos homens como podemos ler no Novo Testamento. O sábio, apesar de descrente num Deus pessoal, era crente num Deus definido, à maneira do judeu heterodoxo Bento Espinosa, como a harmonia universal, a beleza e simplicidade das leis da física.

O Cristianismo é, para Halík, a religião dos paradoxos. Para Chesterton, Jesus Cristo é o “melhor Deus para os ateus”, uma vez que, se estes tivessem de escolher uma religião, deveriam preferir uma em que Deus, ainda que por um só momento, se revelou ateu.  O escritor refere-se ao famoso momento quando Cristo exclama na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? Halík, no Abandono de Deus, cita o cardeal e teólogo jesuíta checo Tomás Spidlík para chamar aos cristão ex-ateus: “Também nós cristãos fomos ateus durante 400 anos”, frase que significa que os cristãos primitivos eram considerados ateus por recusarem a religião romana. Na mesma linha paradoxística, Halík cita ainda Ernst Bloch, o filósofo alemão, marxista e ateu: Só um ateu pode ser um bom cristão, sendo não menos certo que só um cristão pode ser um bom ateu”. Está aqui bem patente a união dos contrários. Vêm-me à mente as palavras, num contexto completamente diferente (o da filosofia da física quântica, no quadro da qual uma onda é uma partícula e uma partícula é uma onda), do físico dinamarquês Niels Bohr: o oposto de uma grande verdade é outra grande verdade.”

Gruen conclui muito justamente que, para crentes e não crentes, existem espaços de trabalho conjunto, espaços de convivialidade e construção de futuro: a espiritualidade decerto, mas também a protecção do ambiente (em defesa da casa comum que é o planeta), a construção da paz, a procura da justiça e a solidariedade e, finalmente, o gosto pela cultura e pela beleza. Sobre a justiça e a solidariedade, Gruen não tem dúvidas de que na luta contra o sofrimento, na luta por um mundo mais justo, os cristãos e os os ateus podem actuar em conjunto”. Dá um belo exemplo retirado do romance A Peste do francês Albert Camus. O médico ateu, o Doutor Rieux, luta contra a peste bubónica, ao lado do padre católico Paneloux. Quando uma criança acaba por morrer, não resistindo à enfermidade, o padre diz que acaba de compreender o que é a graça. Responde-lhe o médico:
“– É o que eu não tenho, bem sei. Mas não quero discutir isso consigo. Trabalhamos juntos por qualquer coisa que nos une para além das blasfémias e das orações. Só isso é importante”.

O resto do diálogo não está neste livro. Mas eu, motivado pela leitura de Abandono de Deus,  fui reler Camus. A história continua assim:

“Paneloux sente-se junto de Rieux. Parecia comovido.
– Sim -  disse ele -, é verdade,  também o senhor trabalha para a salvação do homem. 
Rieux tentou  sorrir.
– A salvação do homem é, para mim, uma palavra demasiado grande..  Não vou tão longe. É a sua saúde que me interessa, é a sua saúde em primeiro lugar.
Paneloux hesitou.
– Doutor... – disse ele.
Mas deteve-se. Também sobre a sua fronte o suor começava a correr. Depois murmurou: «Adeus» e os seus olhos brilhavam quando se levantou. Ia partir quando Rieux, que reflectia, se levantou também e deu um passo para ele.
– Perdoe-me, mais uma vez. Isto não voltará a repetir-se.
Paneloux estendeu a mão e disse com tristeza:
– E, contudo, não o convenci.
– Que importância tem isso? - respondeu Rieux. - O que eu odeio é a morte e o mal, bem sabe. E, quer queira, quer não, estamos juntos para os sofrer e combater.  - Rieux segurava a mão de Paneloux. – Bem, vê, disse, evitando fixá-lo -, nem mesmo Deus pode agora separar-nos.”

Sim, lido este estimulante livro, fácil será concluir que nem o próprio Deus pode separar crentes e descrentes.

quarta-feira, 22 de março de 2017

PORQUE NOS HAVEMOS DE IMPORTAR COM A CIÊNCIA



No próximo dia 28 de Março, terça-feira, pelas 18h00, realiza-se no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra intitulada "Porque nos havemos de importar com a ciência". A palestrante será Joana Lobo Antunes, destacada comunicadora de ciência e Investigadora do Instituto de Tecnologia Química e Biológica - António Xavier.


RESUMO DA PALESTRA:
"A ciência e tecnologia são das principais forças motrizes de uma economia
moderna, são inúmeros os exemplos que nos rodeiam e que demonstram constantemente o quanto a nossa vida mudou graças ao conhecimento e à sua aplicação. Aumento da esperança média de vida, aumento da qualidade de vida, maiores níveis de conforto, maior interacção entre pessoas distantes, melhores acessos.
É fácil compreender o impacto daquilo que chega à sociedade em forma de produtos
e serviços, no entanto a Ciência que está a ser produzida neste momento nos institutos de investigação e universidades demorará muito tempo a ser compreendida na sua plenitude. Ao mesmo tempo, é essa ciência complexa, nova e inovadora que temos de conseguir fazer chegar às pessoas, para que por um lado saibam o que é produzido pelo investimento do dinheiro dos seus impostos e por outro continuemos a alimentar a cultura científica da população, e o prazer intelectual em compreender o conhecimento gerado com quem o faz.
O principal desafio para os comunicadores de ciência hoje em dia é conseguir
traduzir este conhecimento, de forma tão estimulante quanto a paixão e empenho que os investigadores depositam nele. Para que as pessoas se importem de vez com a Ciência."
Esta palestra insere-se no ciclo "Ciência às Seis" coordenado por António Piedade.
ENTRADA LIVRE
Público-alvo: Público em Geral
Link para o evento no facebook

segunda-feira, 20 de março de 2017

Os Jesuítas e a ciência


Meu artigo na última Gazeta de Física:

Os jesuítas, que protagonizaram, nos séculos XVI e XVII, o primeiro processo de globalização, sempre se destacaram na educação e na ciência. O padre alemão Cristophorus Clavius foi aluno do Colégio das Artes, anexo à Universidade de Coimbra, antes de se tornar o maior astrónomo da época entre Copérnico e Galileu. Entre outras obras, deixou-nos uma tradução latina profusamente comentasda de “Os Elementos” de Euclides. O padre italiano Matteo Ricci, um discípulo de Clavius que estudou português em Coimbra antes de partir para a China, onde  se notabilizou como grande transmissor da ciência moderna: foi ele que traduziu para mandarim não só “Os Elementos” mas também algumas obras matemáticas de Clavius.  O padre português João Rodrigues escreveu do Oriente aos seus superiores em Roma: “Mandem-nos livros de matemática em grande quantidade.” E o padre português Cristóvão Ferreira, que é uma das figuras historicamente verídicas do mais recente filme de Martin Scorsese “Silêncio”, que descreve a sanguinária perseguição aos cristãos no Japão no século XVII, tinha bons conhecimentos científicos, tendo escrito após a sua apostasia tratados de astronomia e de medicina que descrevem a ciência ocidental.

Começa hoje a haver a percepção nítida da grave perda que adveio para a  educação e a ciência nacionais da expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal em 1759 e o fim da vasta rede de colégios na metrópole e no ultramar. Mas, nos esforços de restauração da Ordem  entre nós empreendidos pelo padre Carlos João Rademaker, a fundação dos colégios de Campolide de São Fiel, respectivamente em Lisboa (1858) e em Louriçal do Campo, Castelo Branco (1863), representou um forte reinvestimento na educação e na ciência, como bem lembra neste número da “Gazeta de Física” Francisco Romeiras.  O ensino experimental da física foi aí praticado graças à criação de laboratórios, observatórios (um astronómico em Campolide e outro meteorológico em São Fiel) e academias, para já não falar da realização expedições astronómicas a território espanhol para observação de eclipses solares. O único Prémio Nobel português em ciências, António Egas Moniz, estudou em São Fiel.
O nome de um físico do final do século XIX e início do século XX que merece ser mais conhecido é o do padre António Oliveira Pinto, que organizou o Instituto de Ciências Naturais do Colégio de Campolide e a secção de Ciências da academia desse Colégio. Discípulo de Madame Curie, foi um dos pioneiros em Portugal dos estudos da radioactividade, ao investigar a radioactividade das águas minerais. Uma curiosíssima fotografia do arquivo da Companhia de Jesus publicada no artigo de Contreiras mostra um grupo de estudantes jesuítas  que parecem tocar instrumentos de Física como se fossem instrumentos de música, uma “orquestra de física”, portanto, no Colégio de São Francisco, em Setúbal, no ano lectivo de 1892-1893.  Um dos noviços, o do telescópio, é precisamente Oliveira Pinto.


O interesse dos jesuítas pela astronomia continua nos dias de hoje. O Observatório  do Vaticano, um dos mais antigos do mundo pois foi fundado em 1572 pelo papa Gregório XIII (que instaurou o calendário gregoriano, preparado por Clavius e ainda em vigor), é actualmente dirigido por um jesuíta, o americano Guy Consolmagno. Consolmagno, o autor de “A Mecânica de Deus” (Europa-América, 2009), recebeu em 2014 a medalha Carl Sagan, da Sociedade Astronómica Americana, pelas suas extraordinárias actividades de comunicação  ao público em geral das ciências planetárias. Quer dizer, os jesuítas, tal como noutros tempos, continuam não só a praticar a ciência como a espalhar cultura científica.

"Parnasianismo pedagógico", que não é uma coisa nem outra

Com o argumento de que, com a entrada no século XXI, o mundo mudou radicalmente, muitos políticos, empresários, académicos, educadores/professores, parceiros educativos (não sei se por esta ordem) insistem na ideia de que os sistemas educativos têm de mudar, a escola tem de mudar, a sala de aula tem de mudar, os currículos têm de mudar, os recursos têm de mudar...

Aliam este argumento a outro igualmente falacioso: que as crianças e os jovens não são os mesmos dos século XX, são diferentes e, portanto, o ensino tem de mudar, a aprendizagem tem de mudar.

Essas mudanças são invariavelmente apresentadas como um dado adquirido, uma evidência, uma certeza suprema, uma inevitabilidade. Há, pois, que aceitá-las e sem questionar o que, de facto, se passa - se é que se passa alguma coisa - rumando num sentido - o problema é perceber exactamente qual é o sentido.

Mais: é preciso cumprir essas mudanças já; com toda a urgência. Não depois, mas agora, neste momento, na medida em que o seu ritmo é acelerado, é progressivamente mais acelerado, é alucinante.

Não exagerei um milímetro nesta descrição, usei (algumas das) palavras que, por dever de ofício, todos os dias tenho de ler, sou obrigada a ler, palavras que me deixam muito cansada; sendo mais sincera, direi que me deixam estafada!

Até porque são palavras que se associam a outras, que, pelo modo como são (mal) empregadas, se tornaram igualmente esgotantes: aprendizagem significativa, ensino activo, sociedade da informação, competências sociais, mercado de trabalho, emoções, afectos, literacia, criatividade, crítica, valores, cidadania, projecto, colaboração, capacidades, aptidões, educação integral, globalização, etc, etc. etc...

Combinam-se estas palavras de múltiplas maneiras, até à exaustão, não importando a ordem pela qual isso acontece.

Isto porque não interessa a sua origem e o seu sentido concreto, estão na rua e cada um usa-as como bem entende. Além disso, ninguém está empenhado em testar a (falta) de compreensão que o seu alinhamento possa revelar.

São palavras que soam bem a muitos ouvidos e isso basta para que muitas mãos componham algo que se pareça com frases, parágrafos, textos... 

É uma espécie de "parnasianismo pedagógico", sem desmérito nem para o "parnasianismo", nem para a "pedagogia", que nada têm a ver com o fenómeno.

O que resulta é um discurso falacioso, que, pelos equívocos em que faz incorrer, impede qualquer entendimento entre as pessoas que se deveriam entender sobre o que é absolutamente crucial: a educação dos mais jovens, aqueles que estão na escola e que a escola tem o dever de ensinar.

Ainda que tal entendimento não seja conseguido, nas entrelinhas do discurso, quase de modo subliminar, passam ideias em tudo contrárias ao cumprimento desse dever.

Trata-se de um fenómeno antigo e sem fronteiras, reconheço, mas que tem ganho nos últimos meses, em Portugal, uma expressão revigorada, impondo-se despudoradamente e resistindo a qualquer tentativa de racionalidade


Este texto tem continuação

ESCÂNDALO NO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

O Correio da Manhã de domingo revela que uma adjunta do Secretário de Estado da Educação João Costa preparou um documento de elogio ao secretário de Estado e ao ministro que foi assinado por algumas associações de professores. Parece que a referida adjunta acumula com a direcção da Associação de Professores de Geografia, o que mostra a falta de independência, para não dizer mesmo promiscuidade, de algumas associações de professores em relação ao actual governo. Vamos ver quanto tempo permanecerá no lugar. Ver anúncio aqui e ler no jornal. Paulo Guinote comenta aqui.

O UNIVERSO QUE NOS VIU NASCER

Publico o início do meu artigo que acaba de sair na revista THEOLOGICA, 2.ª série, 51, 1 (2016), que corresponde a uma palestra que fiz em 2016 na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica em Braga.

RESUMO

Partindo das “últimas notícias” sobre o Universo – o anúncio em 2016 da primeira detecção de ondas gravitacionais. Descrevem-se as ondas e os objectos que lhes dão origem: os buracos negros. Tanto as ondas gravitacionais como os buracos negros foram previstas há um século no quadro da teoria da relatividade geral de Einstein. Também a teoria do Big Bang – que é, de certo modo, um enorme “buraco branco” – emergiu no mesmo quadro. Como houve um movimento de considerar que a teoria do Big Bang vinha legitimar científica o relato da Criação do Génesis, sumaria-se a evolução das relações da ciência com a religião,tyendo como base as posições sobre esse assunto dos grandes astrónomos e cosmólogos como Galileu, Newton, Einstein, Lemâitre, Hubble e Hawking. Discutem-se, em particular, as posições de Lemaître (que, sendo físico e padre católico, defendeu a separação entre ciência e religião), Einstein (autor de uma muito especial “religião cósmica”)  e Hawking (um cientista ateu, que fala de Deus nos seus livros). A conclusão é, na linha do que afirmou Lemaître, que ciência e religião são independentes, mas compatíveis.

PALAVRAS-CHAVE

Universo, Ondas gravitacionais, Big Bang, Ciência, Religião

“Fascinante e tremendo: o Universo que nos viu nascer” foi o título que o núcleo de Braga da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa me propôs para uma conferência sobre a cosmologia actual na Semana de Estudos Teológicos realizada em Fevereiro de 2016. O nosso Universo é, de facto, fascinante, isto é,  tem cativado a atenção dos seres humanos desde que eles existem na Terra, e, em resultado das suas continuadas e cuidadas observações, modernamente servidas por poderosos meios tecnológicos, a conclusão é que o Universo onde vivemos é tremendo, isto é, enorme e extraordinário. Não sabemos o tamanho do Universo (provavelmente é infinito), mas, na imensidão do espaço vazio, verificámos que ele é um cenário de permanente transformação: vemos estrelas que nascem, vivem e morrem, sempre em movimento, agrupadas em galáxias, também elas em rodopio incessante. O terceiro planeta a orbitar uma estrela média numa galáxia média, entre muitas outras, visto um pouco ao longe (ainda dentro do sistema solar) não passa de um “ponto azul-claro”, conforme lhe chamou o astrofísico americano Carl Sagan [[1]]. Observado mais ao longe, nem sequer se vê. Inspirado numa foto do sistema solar tirada nos confins desse sistema, a 6,4 mil milhões de quilómetros da Terra, pela sonda Voyager 1 a 14 de Fevereiro de 1990, na qual a Terra aparecia como um minúsculo ponto azulado, Sagan comentou numa conferência que realizou na sua Universidade de Cornell em 1994 [[2]]:

Conseguimos tirar essa fotografia e, se a a olharem, vêem um ponto. É aqui. É a nossa casa. Somos nós. Nele viveram todas as pessoas de que ouviu falar, todas as pessoas que jamais existiram. O conjunto da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas económicas confiantes, cada caçador e colector, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilizações, cada rei e camponês, cada jovem casal de namorados, cada mãe e pai, cada criança cheia de esperança, cada inventor e explorador, cada professor de moral, cada político corrupto, cada "superestrela", cada "líder supremo", cada santo e cada pecador na história da nossa espécie viveram ali - num grão de pó suspenso num raio de sol.
A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, pudessem ser senhores momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores de um canto deste pixel aos praticamente indistinguíveis moradores de algum outro canto. Quão frequentes os seus desentendimentos, quão ávidos de matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios. As nossas posturas, a nossa suposta autoimportância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálida.
O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de outro lugar para nos salvar de nós próprios.”

Não foi o caso de Sagan, que era ateu, mas o fascínio do Universo não raro leva a uma resposta religiosa a respeito da existência do Universo e do homem. O filósofo e cientista francês Blaise Pascal­ escreveu nos seus Pensées [[3]]:­­­­

“Ante a cegueira e a miséria do homem, diante do universo mudo, do homem sem luz, abandonado a si mesmo e como que perdido nesse rincão do universo, sem consciência de quem o colocou aí, nem do que veio fazer, nem do que lhe acontecerá depois da morte, ante o homem incapaz de qualquer conhecimento, invade-me o terror e sinto-me como alguém que levassem, durante o sono, para uma ilha deserta, e espantosa, e aí despertasse ignorante de seu paradeiro e impossibilitado de evadir-se. E maravilho-me de que não se desespere alguém ante tão miserável estado. Vejo outras pessoas ao meu lado, aparentemente iguais; pergunto-lhes se se acham mais instruídas que eu, e me respondem pela negativa; no entanto, esses miseráveis extraviados se apegam aos prazeres que encontram em torno de si. Quanto a mim, não consigo afeiçoar-me a tais objetos e, considerando que no que vejo há mais aparência do que outra coisa, procuro descobrir se Deus não deixou algum sinal próprio.
O silêncio eterno desses espaços infinitos me apavora. Quantos reinos nos ignoram!”

Mais modernamente, no século XX, um outro filósofo e cientista, o padre jesuíta francês Teilhard de Chardin, escreveu em L’Apparition de l’Homme [[4]]: “Na escala do cosmos só o fantástico tem condição de ser verdadeiro.”

Neste texto, baseado naquela conferência, começo por apresentar algumas das últimas notícias vindas do cosmos – a detecção de ondas gravitacionais emitidas pela colisão de dois buracos negros, que ilustra precisamenty a afirmação de Teilhard de Chardin – para depois expor resumidamente a actual visão científica da criação do mundo, que assenta principalmente nos trabalhos do físico suíço e norte-americano Albert Einstein, do astrofísico e padre belga George Lemaître e do astrónomo norte-americano Edwin Hubble. Comentarei no fim as relações da ciência física com a teologia, partindo das visões e vivências religiosas dessas grandes figuras. Para uma discussão mais alargada sobre ciência e religião, no contexto da cosmologia, remeto para outros escritos, de autores de referência [[5]] , ou meus. [[6]].


(...)


[1] Carl Sagan, O Ponto Azul-Claro. Uma visão do futuro do homem no espaço, Lisboa: Gradiva,  1995.

[3] Fragmento 72 do livro “Pensamentos” de Blaise Pascal. Extraído do volume Pensadores Franceses”da coleção Clássicos Jackson, vol. XII. Rio de Janeiro, S. Paulo e Porto Alegre: W.M. Jackson, 1952. Tradução de J. Brito Broca e Wilson Lousada. Disponível em http://revistacarbono.com/artigos/01o-homem-perante-a-natureza/

[4] Teilhard de Chardin: L’Apparition de l’Homme, Paris, Editions du Seuil, p. 234. Tradução minha.

[5] Enciclopédia Interdisciplinar de Ciência e Fé. Cultura Científica. Filosofia e Teologia, vol. I Agno-Wepis, Lisboa: Verbo, 2008  (Manuel da Costa Freitas, coord.). Ver, em particular, os artigos “Cosmologia”, de William R. Stoger, pp. 386-401, “Cosmos, Observação do”, de F. Duccio Machetto, pp. 401-411,  e  “Criação”, de Giuseppe Tanzela-Nitti, pp. 411-432;  The Cambridge Companion to Science and Religion, Peter Harrison (ed.). Cambridge: Cambridge University Press, 2019; e Hans Kueng, O Princípio de Todas as Coisas, Ciência e Religião,  Lisboa: Edições 70, 2011.

[6] “Ciência e Religião” (debate com o bispo do Porto, D. Manuel Clemente, na Reitoria da Universidade do Porto em 2009) http://dererummundi.blogspot.pt/2010/02/ciencia-e-religiao.html ; Carlos Fiolhais, “Em Busca de Sentido: Ciência e Religião”, in  Secretariado Diocesano da Evangelização e Catequese. Em busca de Sentido: Ateísmo e Crença na Construção da Pessoa que Ama,  Gráfica de Coimbra 2, 2011, pp. 45-61; C. Fiolhais, prefácio a Bruno Nobre e Pedro Lind, Dois dedos de conversa sobre o dentro das coisas, Braga: Frente e Verso, pp. 15-21; Carlos Fiolhais, “A ciência e o divino”, in Deus ainda tem futuro?, Anselmo Borges (coord.), Lisboa: Gradiva, 2014, pp. 53-70.


Meus livros

Actualizei a lista dos meus livros. Está aqui com links para as fichas no catálogo das bibliotecas da Universidade de Coimbra. Totais:
       
       Teses: 2
       Manuais escolares: 30
       Divulgação, história  e política da ciência: 21
              
       Capítulos de livros: 47
       Prefácios: 32

       Traduções: 8

O AVÔ E OS NETOS FALAM DE GEOLOGIA


O meu próximo livro, da Âncora Editora, com ilustrações de Francisco Bilou, estará disponível a partir de 1 de Junho, Dia da Criança, na Feira do Livro de Lisboa. 


Embora o título sugira uma obra destinada a juvenis, "O AVÔ E OS NETOS FALAM DE GEOLOGIA", escrito em estilo de diálogo, foi concebido a pensar nos Professores que ensinam Geologia nas nossas Escolas, nos seus alunos e, ainda, na generalidade dos leitores interessados em descobrir a maravilhosa história do nosso Planeta.

Esta realização nasceu da experiência que mantive e continuo a manter, proferindo lições por todo o país e em todos os níveis, do Básico ao Secundário e, até, nos Jardins-Escolas.

Sem perda de rigor científico, criei e aprendi a usar o discurso pedagógico mais adequado a cada um destes níveis. E é esse discurso que coloco aqui à disposição dos leitores.

É minha convicção e sempre o afirmei, falando ou escrevendo, que o professor tem de saber muito mais do que o estampado, tantas vezes acriticmente, no "livro adoptado". Tem de ter um complemento cultural sobre as matérias do programa oficial.

Isto para dizer que neste livro, a pensar nos professores, há muita informação que extravasa o dito programa, além de que revela maneiras praticas de expor determinadas matérias que a experiência me ensinou.

Como apoio destas conversas, o docente pode contar e deve contar com o manancial de belíssimas imagens fixas em livros e na net e em vídeos da National Geographic e no Youtube

Introdução
Naquele Verão, era quase sempre com o Sol a descer para lá do Oceano, que o avô falava das muitas coisas que haviam preenchido o seu mundo como geólogo e professor de geologia. Sob o alpendre coberto de hera, no pequeno terraço anexo à casa, uma grande mesa com tampo de ardósia, onde se podia escrever com giz, e algumas cadeiras eram o centro preferido para estas conversas com os três netos.
Liberta a mesa de tudo o que servira o jantar, o Domingos e os gémeos Francisca e Mateus, rodeando o avô, tinham nos olhos o brilho da curiosidade. Mais velho, o Domingos, terminara o 7.º ano de escolaridade. O Mateus e a Francisca tinham concluído o 6.º.
O tempo de férias era agora todo deles, com praia pela manhã, jogos e leituras, dentro de casa, nas horas mais quentes da tarde e aquele apetecido convívio ao fim do dia, que os conduzia a maravilhosas viagens e aventuras. Embalados nas palavras do avô, “caminhavam” sobre rochedos em altas montanhas, “corriam” no solo fofo das estepes e pradarias, “pisavam” o chão áspero e duro dos vales secos e gélidos da Antárctida, “respiravam” a humidade quente e perfumada da floresta amazónica, “mergulhavam” nas profundezas do oceano e “nadavam” nas águas tropicais, límpidas e mornas, por entre corais e peixinhos de todas as cores.
Ouvindo as histórias que o avô contava, “subiam” ao topo de vulcões jorrando lavas incandescentes ou projectando nuvens imensas de cinza, “escorregavam” nas dunas escaldantes no deserto do Sahara ou “percorriam” grutas repletas de cristais e imaginavam-se entre dinossáurios e muitos outros animais desaparecidos. Encorajado pelo interesse e pela atenção dos netos, o avô não parava de falar. Paisagens que percorrera, profundas minas a que descera, museus que visitara, grandes figuras que conhecera e episódios que vivera ou presenciara eram condimentados com ensinamentos nos domínios em que trabalhara e que, ao mesmo tempo, estivessem entre as matérias constantes dos programas escolares destes três elementos do seu pequeno e interessado auditório. E era tudo tão agradável e entusiasmante.
Ouvir o avô era como ver um filme ao lado de alguém que explicava e tornava fácil o que parecia difícil de entender. A cada passo, as novas palavras necessárias ao discurso iam sendo descodificadas, “traduzidas por miúdos”, como dizia o avô, ganhando significado. 
Como exemplo demonstrativo do estilo adoptado, mostra-se aqui dois dos 33 capítulos do livro .
É PRECISO DESCODIFICAR AS PALAVRAS 
A tarde estivera particularmente quente e foi ainda no final do jantar, servido na mesa do terraço, enquanto saboreava o gelado trazido do supermercado, que a Francisca perguntou ao avô qual seria o assunto da primeira das conversas prometidas, a terem lugar ali, à semelhança do que acontecera nas férias de verão do ano anterior. Seriam, certamente, mais uma daquelas lições, dadas num jeito de contar histórias, que dava gosto ouvir.
- Nas conversas que vamos ter este ano, - começou o avô - acho que vou começar com algumas reflexões sobre as palavras que irão ouvir, muitas delas novas e sem significado, se não forem convenientemente explicadas.
- Diga avô. Adiantou-se o Mateus.
- Vamos, então, começar pelo significado das palavras. Todos se acordo?
- Sim, avô. – Disseram, quase ao mesmo tempo, a Francisca e o Mateus.
- E eu também. – Disse, logo a seguir, o Domingos.
- Uma grande verdade que eu aprendi em quarenta anos de professor e muitos mais como divulgador de ciência a todos os níveis, é que «o discurso do professor tem de ser simples, sem perda de rigor, apelativo e, sempre que possível, agradável». Só assim o aluno ou quem o escuta ou lê tem gosto em aprender e aprende.
- É como faz o avô. A gente aprende logo. Quase que não precisa estudar. – Disse este neto.
- Todas as actividades, sejam elas quais forem, das mais simples às mais complicadas, precisam de palavras para dar nomes a todas as ferramentas ou utensílios de que se servem e a tudo o que nelas se faz ou produz. Por exemplo, os cozinheiros servem-se de facas, tachos e panelas, fritam, cozem e assam. Os alfaiates e as costureiras mexem em tesouras, agulhas, linhas e botões, fazem casacos e vestidos e falam de lã, algodão, seda e linho. Todos eles usam palavras que toda a gente conhece, mas também usam outras que nós nem pensamos que existem. Passa-se o mesmo com os médicos, os economistas, os juristas e todos os cientistas e técnicos dos mais variados ramos. Também eles falam de nomes do dia-a-dia de toda a gente, mas atiram-nos à cara muitos outros que só eles e muito poucos entendem. Em suma e simplificando, tudo o que se pensa ou faz e tudo em que se mexe tem um nome. Com a geologia é a mesma coisa. Além das palavras vulgares esta ciência que estuda a Terra criou as suas próprias palavras.
- É mesmo isso. – Interrompeu o neto mais velho. - Quando o avô ou a minha professora falam de coisas da geologia, aparecem sempre palavras novas.
- Os cientistas estão sempre a descobrir coisas novas e, assim têm de criar neologismos. Aqui têm os meus netos, uma palavra que vem mesmo a calhar. Neologismo é o nome que se dá a uma palavra criada de novo e que foi feita a partir dos elementos gregos, neo, que quer dizer novo, e logos, que significa estudo, conhecimento.
- Então, temos de aprender grego? – Perguntou o Mateus com ar de alguma preocupação.
- Não. Basta que saibam o significado dos termos que entram na composição dos vocábulos próprios das disciplinas que têm de estudar. Uns vêm do grego, outros do latim.
- Vocábulos, Avô? – Interrompeu, de novo, o Mateus.
- Aí tens tu uma palavra tirada do latim vocabulu que quer dizer nome de uma coisa. Mesa, copo, lápis, areia, piscina, mar e todos os nomes que conheces e não conheces são vocábulos. Entre os vocábulos usados em geologia, por exemplo, há palavras que toda a gente conhece, como montanha, rocha, areia, erosão, mina, vulcão, e palavras só usadas pelos profissionais, como turbitito, gliptogénese, anatexia, piroclasto, orógeno, hialoclastito e muitíssimas outras, em número de centenas. São nomes que, de momento, nada vos dizem e que, a seu tempo, poderão vir a conhecer.
- E são essas que vamos aprender? – Perguntou o Domingos.
- Por agora nem todas, mas, mais tarde, certamente que sim. - Continuou o avô. - Eu costumo dizer que são palavras “caras” que é preciso “trocar por miúdos”. No século XVIII, quando as ciências começaram a ganhar importância, estudar e criar conhecimento era uma actividade, praticamente, só exercida no seio do clero, por padres e monges, e também por alguns representantes da nobreza. O latim e o grego faziam parte das disciplinas habituais no ensino a que, nesse tempo, só estas classes tinham acesso. O povo, dizia-se, não precisava estudar. Bastava-lhe a força dos braços e a habilidade das mãos. Estava-se muito longe de o ensino ser obrigatório para toda a gente.
- A cabeça do povo era só para pôr o chapéu ou o barrete.
- Entrou na conversa a avó, atenta à conversa. – O clero e a nobreza sabiam muito bem que os seus privilégios assentavam na ignorância do povo.
- E fiquem a saber - acrescentou a mãe das crianças, atenta a esta conversa - que, mesmo depois e por muito tempo, estudar era uma actividade só acessível aos homens. As mulheres não tinham essa possibilidade. Serviam para tudo menos para estudar. Estavam destinadas a serem boas esposas, boas mães e boas donas de casa. Ainda pouco na geração da avó, mas depois, felizmente, na minha, as raparigas já puderam estudar lado a lado com os rapazes.
- Era como ainda hoje em algumas sociedades dominadas por fundamentalistas religiosos, em que as raparigas estão proibidas de ir à escola. – Lembrou a avó.
 - Hoje, nas nossas escolas, - continuou a mãe das crianças - praticamente, ninguém estuda latim ou grego. Só na Universidade e, mesmo assim, são poucos os alunos que frequentam estas disciplinas. O latim que os romanos falavam já não se fala em parte nenhuma, nem em Itália. E o grego que se fala na Grécia já sofreu grandes alterações.
- Bom, mas continuemos. - Interrompeu o avô. - Os cientistas têm de dar nomes às coisas que vão descobrindo ou, por outras palavras, como já dissemos, têm de criar neologismos. E, respeitando a tradição, fazem-no a partir de nomes que vão buscar a essas duas línguas da Antiguidade. São palavras que, praticamente, só eles e os seus pares entendem.
- E geologia é outra dessas palavras, não é, avô? – Disse o Mateus. - Aí temos nós mais um bom exemplo para começar. – Continuou o avô.
- A palavra geologia foi feita juntando dois elementos também de origem grega, geo, que significa Terra, e logos, que quer dizer estudo, conhecimento. Geologia é hoje uma palavra conhecida de muita gente mas, no século XVIII, quando foi introduzida com o significado que lhe damos, só os mais eruditos a conheciam. Eruditos, Avô? Isso é outra palavra cara? – Perguntou o Mateus, a rir.
- É uma palavra que fomos buscar ao latim eruditu e que se aplicava a uma pessoa que sabia muito. E quem diz geologia diz muitas outras. Por exemplo, a palavra cassiterite, nome que foi dado ao mineral de estanho que podem ver aí na colecção que o Domingos começou a fazer, teve origem no grego, kassiteros, que significa estanho, e a que se acrescentou o elemento ite com que terminam os nomes da maioria dos minerais.
- A minha professora também explica as palavras mais esquisitas. - Disse o Domingos.
- À medida que formos falando de geologia – continuou o avô - iremos sempre explicando como nasceram as novas palavras que forem aparecendo, o que torna fácil tudo aquilo que parece difícil. Se souberem o significado dos elementos de que são feitos os nomes que forem aprendendo, eles passam a fazer uma parte sólida do vosso conhecimento.
- Diga mais palavras dessas. Avô. – Pediu a Francisca. - Digo só mais uma que iremos usar muitas vezes,
- Diga, avô. – Entusiasmou-se a neta.
- Litosfera, que é o nome que se dá à camada exterior da Terra, toda ela formada por rochas. Analisando esta palavra verificamos que, também ela, foi feita juntando dois nomes gregos: lithós que significa pedra ou rocha, e sphaira que, está-se mesmo a ver, quer dizer esfera.
- Assim, fica tudo mais fácil. Obrigado, avô.
- Por hoje já chega. Para terminar, vamos meter bem na cabeça que todos os vocábulos que ouvirmos ou lermos, à medida que formos avançando no nosso estudo, têm de ser explicados. Se não tivermos este cuidado, não passam de palavrões sem significado que decoramos para podermos responder no exame e que, depois, se esquecem para sempre. E agora vão brincar um bocadinho, antes de irem para a cama.  
À SEMELHANÇA DE UMA CEREJA 
- Ó avô, - começou o Domingos, naquele fim de tarde, com o Sol a esconder-se no horizonte,
- Este ano, lá na escola, aprendemos que a Terra tem um núcleo, um manto e uma crosta. Como é que se pode saber isso se ninguém lá foi ao fundo?
- Ninguém foi nem ninguém poderá ir. – Respondeu o avô. - O calor lá bem no fundo é tanto que derrete o ferro e a pressão é tão forte que se lá pudéssemos chegar, como disse o teu pai, ficávamos mais pequeninos do que um caroço de azeitona.
- Ó avô, mas como é que a pressão faz as coisas mais pequeninas? – Perguntou a Francisca. - É muito simples, minha neta. A resposta é «Porque aperta». Pega num bocado de miolo de pão e aperta-o bem na tua mão e vê o que é que acontece.
- Já percebi, avô.
- Ó avô, explique lá isso do calor. A gente põe os pés aqui no chão e sente a pedra fria. Como é que está quente lá por baixo? – Perguntou, interessado, o Mateus.
- Primeiro vamos procurar saber como é que o nosso planeta é por dentro. - É como se fosse uma cereja, disse a minha professora. – Adiantou o irmão mais velho.
- Do que temos por baixo dos nossos pés, - começou o avô - só podemos ver e estudar, directamente, as rochas que escavamos nas minas e as que trazemos à superfície através de sondagens. Mas isso leva-nos a profundidades que não são nada quando comparadas com os mais de 6300 km de raio desta grande bola que é a Terra.
- Ó avô, nós já descemos a uma mina, mas eu não sei o que é uma sondagem. – Disse, de imediato, o Mateus.
- Foi em Loulé, na mina de sal. – Acrescentou a Francisca. - Fomos todos num elevador até lá abaixo.
- Uma sondagem em geologia, meu neto, é um furo no chão para se colherem as rochas em profundidade e as podermos estudar. Vou explicar-te, da maneira mais fácil de entender, o que é uma sondagem. Vai buscar uma maçã e o descaroçador com que se prepara para a assar no forno. A correr, o neto entrou em casa e saiu, instantes depois, com o solicitado. Atravessando o fruto com o dito utensílio, o avô retirou dele aquele rolinho do seu interior que contém as sementes.
- Estás a ver? – Disse o avô. – Este rolinho traz cá para fora e deixa ver a parte de dentro da maçã. Se fizeres o mesmo nesta floreira, tiras dois ou três centímetros da terra que está escondida. Uma sondagem faz o mesmo. Vai furando chão adentro e traz para a superfície amostras das rochas que vai atravessando.
- A minha professora mostrou um vídeo onde pudemos ver os homens a fazerem uma sondagem à procura de petróleo. - Comentou o Domingos.
- Sempre que se deseja construir uma barragem, uma ponte, um grande edifício ou qualquer outra obra suficientemente importante, é fundamental saber se o terreno que está por baixo, ou seja, se as rochas que lhe servem de suporte aguentam a respectiva sobrecarga. Nesse sentido fazem-se tantas sondagens quantas as julgadas necessárias. A procura de petróleo, de gás natural e de águas subterrâneas ou, ainda, outros estudos, não dispensam o uso de sondagens.
- A minha professora disse ainda que o mais fundo onde o homem já chegou é numa mina de ouro, na África do Sul, onde se pode descer até cerca de 4 quilómetros de profundidade, e que a sondagem mais profunda ultrapassa os 12 km.
- E disse muito bem, Domingos. Tiveste uma boa professora. Essa sondagem foi feita na Península de Kola, na Rússia, e o que, parecendo muito, face à dificuldade e ao tempo gasto a fazê-la, é muito pouco, pois trouxe para a superfície rochas só da parte mais superficial da crosta terrestre, cuja espessura média, como se devem lembrar, é da ordem dos 35 quilómetros. Mesmo esses quilómetros todos representam muito pouco quando comparados com os já referidos mais de 6300 km do raio da Terra.
- Mas podemos ir ainda mais fundo. Não é avô? – Disse o Domingos
- Podemos, sim senhor, através de rochas do manto trazidas cá para cima, dentro da lava de alguns vulcões. Mais adiante, quando falarmos do manto, voltaremos a este assunto.
- São os xenólitos, avô. – Apressou-se o neto a dizer. - Já lá iremos.
- Moderou o avô. – Mas fiquem a saber que podemos ir ainda mais fundo, não com rochas vindas dessas profundidades, mas com outros conhecimentos. Já temos hoje uma ideia muito razoável sobre o interior do nosso planeta, sobretudo com base no estudo dos sismos, ou seja, dos tremores de terra. Um tema sobre o qual falaremos um dia destes.
- Eu dei essa matéria lá na Escola, mas foi tudo muito à pressa. - Disse o Domingos.
- Mais tarde hão-de saber como e porquê, mas por agora basta que saibam que, com base nos registos dos sismos muito fortes, podemos saber que o nosso planeta tem um núcleo, rodeado por um capa esférica muito espessa, a que damos o nome de manto que, por sua vez, está rodeado por outra capa relativamente muito fininha que é a crosta.
- Ó avô, faz de conta que o caroço da cereja é o núcleo, aquilo que a gente come é o manto e que a pele é a crosta. – Insistiu o neto em dizer.
- Correcto. Essa é uma boa imagem para explicar a estrutura interna do nosso planeta e, já agora, Domingos, “aquilo que a gente come” chama-se polpa.
- Eu sabia, avô, mas saiu assim.
- Muito bem. – Pôs fim à conversa, o avô. – Hoje ficamos por aqui. O tempo é todo vosso até serem horas de deitar.
A. Galopim de Carvalho