quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

"REGRESSO AO ADMIRÁVEL MUNDO NOVO" ORGANIZADO PELA FFMS NA CULTURGEST

UM BURRO NO TELHADO



Minha crónica no "Público" de hoje (na imagem "O Burro no telhado", de Marc Chagall):

 A expressão latina “Asinus in tegulis” vem no Satyricon, a obra clássica de Petrónio. Significa literalmente “um burro no telhado” e tem o duplo sentido de “coisa nunca vista” e de um “ignorante que subiu alto”. Foi essa a expressão que terá ocorrido a muita gente quando, contrariando as melhores previsões, Donald Trump foi eleito Presidente da nação americana. A chegada ao topo do poder de um candidato sem qualquer experiência política é, de facto, algo nunca visto. Por outro lado, são conhecidas as suas limitações quanto ao conhecimento do mundo: por exemplo, em Junho passado, declarou num comício que a Bélgica era “uma bonita cidade”. A alguém com dificuldades básicas em geografia seria evidentemente pedir muito que dominasse temas científicos elaborados como os riscos para a humanidade do aquecimento global. O dito do Satyricon afigura-se tanto mais apropriado quanto Trump habita numa penthouse da Trump Tower, o arranha céus da 5.ª avenida que simboliza bem a sua elevada ascensão na construção civil.

 Há quem pense que qualquer presidente de um país democrático, por muitas limitações que tenha, será sempre normalizado por todo um sistema de checks and balances que impede a excessiva concentração do poder. Receio que isso só em parte acontecerá. A ignorância não é uma fatalidade, mas exige algum empenhamento do próprio para a ultrapassar e até lá alguma contenção. E verifico que há no presidente eleito dos Estados Unidos um irreprimível impulso para o sound byte, que parece não ter sido curado pela vitória eleitoral. Veja-se a afirmação recente através do Twitter, a arma que prefere para disparar palavras, de que “tinha ganho o voto popular se se descontarem os milhões de pessoas que votaram ilegalmente”. Não só não apresentou qualquer prova abonatória como se trata de um óbvio tiro no pé, pois estava a declarar que a eleição ganha por ele, com o reconhecimento da sua principal opositora, tinha afinal sido fraudulenta. Mesmo que os tweets passem a ser filtrados por assessores, a tendência de Trump para o disparate parece difícil de controlar. Já agora um pouco mais de latim: "disparate" e "disparar" estão semanticamente relacionados, pois o primeiro vem de disparatus, que significa disparar flechas em todas as direcções em vez de as dirigir a um alvo. Vamos, vaticino, continuar a assistir a tiros aleatórios, alguns com gravidade do ponto de vista diplomático. Por exemplo, num alegado diálogo telefónico de Trump com o primeiro-ministro do Paquistão, o futuro presidente terá dito: “estou disposto a desempenhar qualquer papel que você queira para encontrar soluções para os problemas pendentes.”

 Claro que, em democracia, se deve respeitar o voto popular. Mas têm também de ser respeitados os métodos comprovados para apurar a verdade, como por exemplo a lógica. Serão a democracia e a lógica incompatíveis? Poderá o número pi ser, pelo voto, igual a 3,2 em vez de 3,141592654...? De facto a Assembleia do Estado de Indiana discutiu uma lei que teria essa consequência matemática. Mas tal aconteceu em 1897 e essa lei não passou porque estava na assembleia um professor de Matemática. Convém que alguém evite a promulgação de “pi = 3,2” ou, ainda pior, “2 + 2 = 5”, o slogan político que Orwell colocou em 1984.

 Que a Europa não está ao abrigo do pior populismo é mostrado pela recente votação italiana. O primeiro-ministro demissionário, Matteo Renzi, permitiu, com a questão referendária que levantou, que “vozes de burro” ficassem mais perto do céu. O ex-comediante Beppe Grillo, que tem as suas parecenças com Trump (também se tornou popular à custa de espectáculos televisivos), apressou-se a cantar vitória. Silvio Berlusconi, talvez o político italiano mais parecido com Trump (é também um milionário enredado em problemas judiciais), não deixou de sorrir ao saber do “não”, sonhando regressar. E Matteo Salvini, o líder da Liga Nord, que tem em comum com Trump o manejo rápido do Twitter, tweetou logo que foram anunciados os resultados do referendo: “Viva Trump, viva Putin, viva Le Pen e viva a Liga.” Os antigos romanos diziam: “Asinus asinum fricat”, isto é, “um burro coça outro.”

A que se deve o facto de sermos o país que mais subiu no PISA?

Desde o início deste século que os sistemas de ensino do vasto espaço que é a OCDE e do espaço mais restrito que é a UE se têm concentrado cada vez mais na preparação dos alunos para mostrarem resultados nos programas internacionais de avaliação, nomeadamente o PISA e o TIMSS.

Os currículos são aferidos pelas opções que dão forma a esses programas: tem valor o que eles medem, perde valor o que não medem. As políticas educativas são julgadas pelos resultados e mudam-se em função disso mesmo. 

Estas evidências e outras levam-me a ter cada vez menos simpatia por tais programas. 

Posto isto, não posso deixar de registar a subida dos resultados académicos dos nossos alunos - em ciências, matemática e língua materna - que foram divulgados na passada semana, do TIMSS, e nesta semana, no PISA.

A que se deve isso? A que se deve o facto de sermos o país que mais subiu no PISA? 

Não certamente apenas e só às políticas e às mudanças curriculares, que é o que sobressai nas notícias nacionais e internacionais, mas também, e talvez sobretudo, ao trabalho dos professores que, muitas vezes em condições adversas, não desistem de ensinar.

Mais um referencial de educação para a cidadania

Foi recentemente posto a discussão pública mais um documento curricular destinado a orientar a educação para a saúde Referencial de Educação para a Saúde -, uma das quinze áreas de educação para a cidadania, que pode ser adoptada na educação pré-escolar, no ensino básico e no ensino secundário

Outras áreas - educação financeira, educação para o empreendedorismo, educação para a paz, educação para o risco, e dimensão europeia da educação - já tinham, além de múltiplos documentos e recursos, um referencial próprio.

Um referencial é, basicamente, um conjunto de standards, de metas (na tradução portuguesa) que, com base em determinados conteúdos, indica os desempenhos que os alunos devem demonstrar no final de um período de ensino.

Ora, neste caso, os conteúdos, melhor, os temas são cinco: saúde mental e prevenção da violência, educação alimentar, actividade física, comportamentos aditivos e dependências, e afectos e educação para a sexualidade.

Temas diversos que dificilmente encontram um ponto em comum e que, como se perceberá, são tratados (ou, se não são, deviam sê-lo) no âmbito das disciplinas escolares, nomeadamente, do estudo do meio, das ciências da natureza, da biologia, da educação física, da filosofia. Tudo o que vai além disso, não sendo escolar, não deve estar na escola.

O que consta neste referencial é basicamente uma arrumação daquilo que se encontrava disperso em vários documentos - normativos, programas, materiais de apoio a actividades - que, a pouco e pouco se foram introduzindo no sistema de ensino, sobretudo pela mão de profissionais de saúde. Está, neste aspecto, longe de introduzir qualquer novidade. Mantém, também, em continuidade, um forte carácter doutrinal e doutrinador, como é infelizmente apanágio dos documentos congéneres.

Esperemos que as escolas e os professores tenham o bom-senso de perceber tudo isto.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Brinquedos que (nos) espiam

“Estamos habituados (...) a falar mais de segurança dos brinquedos no que diz respeito à segurança física: perigo de asfixia, químicos, a questão das idades adequadas… Essas costumavam ser as questões de segurança dos brinquedos, mas aquilo que verificamos é que cada vez mais temos de verificar a segurança dos dados pessoais da criança.”
Palavras de um jurista da Associação Portuguesa para a Defesa dos Consumidores (Deco), Diogo Nunes, a propósito do que o leitor por perceber neste inquietante vídeo.


Notícia consultadas: aqui.

EDUCAÇÃO, TECNOLOGIAS E CONECTIVIDADE



Educação, Tecnologias e Conectividade" é o título da palestra que António Dias de Figueiredo vai proferir no próximo dia 13 de Dezembro, pelas 18h00, no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra. Esta palestra insere-se no ciclo "Ciência às Seis" coordenado por António Piedade.




Resumo da palestra:
"Que desafios se colocam à educação e à escola num mundo onde se esbate a distinção entre presencial e distante, real e virtual, ativo e interativo? Que papel para as tecnologias? Que mudanças socioculturais? Que virtudes e que perigos? Que potencialidades para a escola? Que papel para nós próprios, enquanto pais, professores e eternos estudantes? Nesta palestra e no debate que se lhe seguirá procurar-se-á abrir um espaço de reflexão sobre estas questões."

ENTRADA LIVRE
Público-alvo: Público em geral


Evento no facebook

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

"PORTUGAL: AMBIENTES DE MUDANÇA", DE LUÍSA SCHMIDT

Está nas livrarias e no Círculo de Leitores o novo livro de Luísa Schmidt, a incansável cronista no Expresso sobre assuntos de ambiente ("Qualidade devida") que acaba com todo o mérito de ganhar o Prémio Ciência Viva Media.

PARABÉNS MUSEU DE CIÊNCIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA!


O Museu de Ciência da Universidade de Coimbra faz hoje 10 anos, inaugurando uma exposição sobre mapas antigos. Vale a pena a visita.

domingo, 4 de dezembro de 2016

"o bicho humano, para ser feliz, necessita de uma utopia"

Faleceu Ferreira Gullar, um dos grandes poetas brasileiros da actualidade.

Connosco deixou a sua arte, que nunca morre.


"A arte existe porque a vida não basta" 

"Eu não tenho dúvida alguma de que a arte é necessária porque a vida não é suficiente, porque senão qual era a necessidade de inventar a arte? A necessidade é essa: as pessoas necessitam dela, por mais que aconteça coisa no mundo, a arte sobrevive, como uma forma de acordo com o momento, com a época, ela é uma coisa necessária, como a ciência é necessária, como a filosofia é necessária, como a religião é necessária, como a política é necessária".

Ferreira Gullar (São Luís, 10 de Setembro de 1930 – Rio de Janeiro, 4 de Dezembro de 2016).

É mais fácil e mais barato responsabilizar o indivíduo

Na continuação de texto anterior.

São vários os seus "ingredientes" do novo modo de pensar que se instalou na educação escolar e a determina. Não é fácil reuni-los, captar o seu sentido e operacionalizá-los, nem perceber a sua interligação.

Expressões como auto-estima, auto-conceito, auto-conhecimento; inteligência emocional e, até, espiritual, inteligências múltiplas; afectos e emoções, e gestão dos ditos afectos e emoções; informação e sociedade do conhecimento; tecnologias e múltiplas das suas especificações; games, gamificação, ludicidade; diferenciação e colaboração; terapias várias nas quais se inclui a do riso, empreendedorismo, iniciativa e resiliência; coaching e mindfulness... devem constituir o novo vocabulário de quem se quer mostrar moderno no campo da pedagogia.

Trata-se de expressões que, na sua maioria, são importadas de outros campos, nomeadamente da psicologia (geral e clínica) e das tecnologias, mas, talvez, sobretudo do quotidiano social, com todas as suas forças de expressão e de pressão.

Ainda que correndo o risco de cometer heresia face ao que se encontra estabelecido e é dado como verdade inabalável, algumas pessoas da área da pedagogia e de fora dela começam a publicar reflexões interessantes e importantes a que devemos dar atenção.

Imagem de aqui
Uma dessas reflexões concentra-se na expressão mindfulness, mais precisamente no seu sentido e substância.

Transcrevemos abaixo partes (com adaptações) de um texto publicado no The New York Times, que, de modo muito claro, cumpre esse requisito, até porque o mindfulness é elevado, neste momento, no nosso país, a medida capaz de concorrer para o sucesso escolar (Mind up), tendo, nessa medida, sido adoptado em várias escolas.


Ruth Whippman
A técnica da atenção plena (mindfulness) é, supostamente, uma defesa face às pressões da vida moderna mas, de forma suspeita, começa a tornar-se em mais outra pressão – é um círculo especial do inferno do autodesenvolvimento (...). 
Trata-se de uma filosofia certamente mais recompensadora para aqueles cujas vidas se pautam por momentos privilegiados, em comparação com quem se depara com horas de trabalho, humilhação e exaustão. 
Aconselharem-nos a viver mais no presente, em atenção plena, contém muitas vezes uma dose de presunção moralizante; é uma espécie de "momento de vergonha" dos mais distraídos, como um professor severo que nos repreende por não estarmos concentrados na aula (...). A verdade é que as nossas vidas são muito mais interessantes vivendo fora do presente do que nele (…).
Uma das mais magníficas actividades do nosso cérebro é a capacidade de equacionar alternativas passadas, presentes e futuras em paralelo, de modo a ultrapassar o tédio da vida quotidiana. O que diferencia os humanos dos animais é precisamente esta capacidade de nos desligarmos do que está a acontecer num exacto momento, dando-lhe contexto e significado. (…)
A implicação [da filosofia subjacente ao mindfulness] é que, descurando viver o momento no momento, somos ingratos e não-espontâneos, estamos a desperdiçar as nossas vidas, e portanto, se somos infelizes, a culpa é nossa e só nossa. 
Esta atitude moralista é parte de uma longa história de auto-ajuda baseada no pensamento cultural de policiamento. É o "movimento de pensamento positivo" a transformar os problemas quotidianos em "pensamentos problemáticos". A "atenção plena" torna-se o foco do nosso apetite pelo auto-aperfeiçoamento interior. 
Quando antes se entendia que os problemas, mesmo os mais complexos e enraizados – desde um casamento infeliz ou stress laboral até à pobreza e discriminação racial – deviam ser encarados para serem superados, agora a ideia é "instruir os aflitos" a serem mais conscientes desses problemas.
Isto é uma espécie de neoliberalismo das emoções, em que a felicidade é vista, não como uma resposta às nossas circunstâncias, mas como resultado do esforço mental individual, e, naturalmente, como uma recompensa para quem o consegue e, por isso, o merece. 
O problema não é a nossa renda de casa altíssima ou o salário miserável, os nossos chefes corruptos ou a pilha gigante de pratos sujos para lavar – o problema somos nós. 
É, naturalmente, mais fácil e mais barato responsabilizar o indivíduo pelos seus pensamentos errados do que abordar as causas espinhosas da infelicidade, que, bem vistas as coisas não é só dele. 
Assim, damos aulas de mindfulness em vez de nos debruçarmos sobre a desigualdade educacional e instruímos trabalhadores exaustos para uma respiração atenta, em vez de lhes providenciar férias pagas ou melhores cuidados de saúde. 
Embora alguns dos estudos demonstrem que o mindfulness ou exercícios semelhantes possam ter alguns benefícios, quando comparados com outras técnicas de relaxamento (...), verifica-se que as pessoas não conseguem, com isso, um melhor desempenho (...). 
Assim, em vez de gastarmos a nossa energia lutando para permanecermos no momento presente com atenção plena, talvez devêssemos simplesmente estar gratos pelo facto de o nosso cérebro nos permitir estar noutro lugar.
Maria Helena Damião e Joana Branco 

Designação precisa-se...

As mentalidades ou certos aspectos delas podem mudar muito rapidamente, basta que a orientação (ou pressão) seja a certa, bem engendrada e melhor executada, sempre, claro está, dissimulada.

No campo da educação escolar, há duas décadas, talvez um pouco mais, vimos alicerçar-se um modo de pensar que Marçal Grilo, ex-ministro da educação, designou por eduquês. Não vale a pena voltarmos à sua caracterização pois os leitores deste blogue, sobretudo os que o acompanham tê-la-ão presente.

Acontece que, nos anos mais recentes, esse modo de pensar tem-se desvanecido, foi sendo esquecido, deixou de estar na moda; ao mesmo tempo um outro modo de pensar foi-se infiltrando nos discursos e nas práticas pedagógicas, passando a ser a moda.

Este novo modo de pensar, tal como o anterior, impõe-se como o único válido, como aquele que salvará as novas gerações, o mundo... No caso, sem ele não haverá, não poderá haver, salvação; só ele pode garantir o futuro, o século XXI.

Como já estamos atrasados para o futuro - afinal, já entrámos nesse século -, é preciso mudar rápida e radicalmente a escola, os espaços e os recursos de aprendizagem, os modos de aprendizagem, o rol de literacias e as competências que lhes estão associadas... tudo, mas tudo o que vem de trás, do passado, mesmo que o passado seja presente, por ser catalogado como tradicional, como obsoleto, não serve, tem de ser recusado, mudado, inovado...

Acresce dizer que tal como o velho eduquês, este "modo de pensar" permite estabelecer uma linha bem definida entre "crentes" e "hereges", ou seja, entre aqueles que o aceitam tal e qual e aqueles o submetem, como convém num ambiente intelectual digno desse nome, a crítica.

Também como o anterior modo de pensar, este ganhou reconhecimento académico (surgiram especialistas, livros e artigos, revistas temáticas, teses, congressos e outros eventos, tudo com a marca de científico) e legitimidade curricular (organismos internacionais avançam orientações e recomendações; os poderes, políticos e escolares, acolhem-nas e determinam).

E, assim, o novo modo de pensar, a que falta uma designação, instala-se para ficar. Pelo menos por umas décadas...

"Há uma estupidez enorme nas reformas" do ensino

Nuccio Ordine, autor do livro A inutilidade do inútil, sobre a educação escolar que temos e que teremos.

Em entrevista recente ao jornal Folha de São Paulo:

"O que escrevi é também uma crítica à pedagogia moderna que quer ensinar os jovens através do jogo, da superficialidade sem esforço. É um erro enorme, o saber não é um dom, é uma conquista quotidiana que é preciso fazer." 
"Hoje infelizmente as escolas e as universidades tornaram-se empresas, que vendem diplomas, e os alunos clientes, que compram diplomas; nessa perspectiva, nesse espírito de comércio, as ideias de cultura, de conhecimento e de educação são destruídas." 
"Há uma estupidez enorme nas reformas que estão a ser feitas em países da Europa, segundo a ideia de que a escola moderna deve ser conectada com a internet em todo o lado e que o estudante tenha um tablet ou um computador diante de si. Isso é uma estupidez enorme. A escola moderna não é a conexão, a tecnologia mas a escola com bons professores porque eles geram bons alunos."
E no mencionado livro, na segunda parte, páginas 101 e seguintes:
"... trata-se de uma revolução copernicana que nos próximos anos mudará radicalmente o papel dos professores e a qualidade do ensino. 
Quase todos os países europeus parecem estar orientados para uma redução dos níveis de dificuldade a fim de permitir que os estudantes passem nos exames com maior facilidade, na tentativa (ilusória) de resolver o problema daqueles que não acompanham regularmente os cursos. 
Para diplomar os estudantes no tempo exigido pela lei e para tornar a aprendizagem mais «agradável» não se exigem esforços adicionais mas ao contrário, procura-se seduzir os estudantes com a perversa redução progressiva dos programas e com a transformação das aulas num jogo interactivo superficial, baseado em projecções em power point e na aplicação de questionários de escolha múltipla."

É muito importante tornar a humanidade mais humana

“Não temos consciência de que a literatura e os saberes humanísticos,
a cultura e o ensino constituem o líquido amniótico ideal no qual as ideias
de democracia, liberdade, justiça, laicidade, igualdade, direito à crítica, 
tolerância e solidariedade podem experimentar um vigoroso desenvolvimento”. 

A frase acima reproduzida é de Nuccio Ordine, professor italino de literatura, que recentemente publicou um livro - A inutilidade do inútil - que deveria se lido por todos os que têm responsabilidade no currículo escolar, desde decisores políticos, até aos professores e directores, passando pelos pais e encarregados da educação. O leitor perceberá porquê se vir o pequeno vídeo que se segue:


sábado, 3 de dezembro de 2016

NOVOS CLASSICA DIGITALIA

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações, com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra e Annablume (São Paulo).

Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital. O eBook correspondente encontra-se disponível em acesso aberto. 

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “DIAITA: Scripta & Realia”
  Carmen Soares, Arquéstrato: iguarias do mundo grego. Guia gastronómico do Mediterrâneo antigo (Coimbra e São Paulo, Imprensa da Universidade de Coimbra e Annablume, 2016). 120 p.                                 [Tradução para português do texto grego de literatura gastronómica mais antigo a ter chegado aos nossos dias, ainda que apenas sob a forma de fragmentos. O poema do siciliano Arquéstrato (séc. IV a. C.) é um retrato da alimentação requintada das elites aristocráticas, com poder económico para comprar o mais caro dos ingredientes (o peixe fresco de qualidade) e para realizar as rotas gastronómicas implícitas no texto. No cap. I procede-se à análise dos dados biográficos do autor e à história da transmissão e receção da sua obra até aos nossos dias. Segue-se a tradução dos 60 fragmentos que a compõem (cap. II), acompanhada de notas explicativas e de fotos de algumas das iguarias (reproduzidas da forma mais fidedigna possível). No cap. III realiza-se uma análise detalhada do contributo do poema para a história da alimentação na Grécia antiga.]


Série “Autores Gregos e Latinos” (monografias breves)
   Cláudia Teixeira, Estrutura, personagens e enganos: introdução à leitura de As Báquides de Plauto (Coimbra e São Paulo, Imprensa da Universidade de Coimbra e Annablume, 2016). 83 p.                                    
DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-1276-8

[Estudo introdutório e didático à leitura de As Báquides de Plauto, no qual se analisam o contexto e as características da peça, a estrutura e as personagens, e ainda o problema da originalidade plautina na conceptualização do ‘terceiro engano’.]

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

MIGUEL REAL ESCREVE SOBRE "JESUÍTAS, CONSTRUTORES DA GLOBALIZAÇÂO"


Miguel Real recenseou no último JL (nas bancas) num longo artigo o livro, de José Eduardo Franco e meu, que saiu há poucos meses nas Edições CTT e que está quase esgotado. Vai ser apresentado na Universidade de Coimbra (Museu da Ciência) no dia 15 de Dezembro.

A HISTÓRIA DAS CIÊNCIAS EM COIMBRA E O DIÁLOGO INTERDISCIPLINAR: Os Professores Joaquim de Carvalho, Luís de Albuquerque e Rómulo de Carvalho

Capítulo da minha autoria do livro "Interdisciplinaridade e Universidade", coordenado por António Rafael Amaro, Álvaro Garrido e João Paulo Avelãs Nunes, que acaba de sair do prelo da Imprensa da Universidade de Coimbra:

De 30 de Setembro a 6 de Outubro de 1934, sob o alto patrocínio do Presidente da República Portuguesa General Óscar Carmona e com um comité de honra que incluía o Presidente do Conselho de Ministros Oliveira Salazar, realizou-se em Portugal o III Congresso Internacional de História da Ciência. Foi uma rara ocasião pois um dos maiores eventos da história da ciência mundial tinha lugar entre nós, numa altura em que o mundo se aproximava talvez sem plena consciência da Segunda Guerra Mundial. e o país vivia as dificuldades e vicissitudes do início do Estado Novo.

 O primeiro Congresso tinha sido realizado em Paris em 1929. O segundo em Londres em 1931. E o terceiro estava previsto para Berlim em 1934. Dificuldades da sua realização em Berlim, associadas à chegada ao poder do nacional-socialismo, originou uma proposta da sua realização na Península Ibérica, numa organização conjunta de Espanha e Portugal, sendo o tema central (a herança científica árabe) apropriado ao sítio. No entanto, problemas com o grupo espanhol de História das Ciências (recorde-se que a Guerra Civil havia de irromper em Espanha em 1936) fizeram com que o Congresso tivesse lugar apenas em Portugal.

 As sessões realizaram-se no Porto, em Coimbra e em Lisboa. A Universidade de Coimbra desempenhou um papel importante desde o início da organização, pois o Professor da Faculdade de Letras Joaquim de Carvalho, Presidente da Secção de Coimbra do Grupo Português de História das Ciências, tinha-se em 1933 oferecido para organizar as sessões na cidade universitária, assim como algumas excursões na região. Os seus colegas de Coimbra Diogo Pacheco de Amorim (matemático), Geraldino Brites (médico) e Alberto Cupertino Pessoa (também médico, secretário geral do comité organizador) colaboraram com ele e com professores do Porto e Lisboa na preparação da iniciativa. A 2 de Outubro os congressistas visitaram a Biblioteca Joanina, onde lhes foi proporcionada uma exposição de livros de Medicina dos séculos XV e XVI, e foram recebidos pelo Reitor. Na Sala Gomes Teixeira realizou-se no mesmo dia a sessão trienal da Academia Internacional de História das Ciências, presidida pelo Doutor George Sartor, o químico de origem belga e radicado nos Estados Unidos que é geralmente visto como o fundador da História da Ciência e que foi fundador e durante muitos anos editor-chefe da revista Ísis, uma referência nesta área (pude adquirir num alfarrabista um livro oferecido por George Sarton a Alberto Pessoa, com dedicatória em que agradecia a hospitalidade em Portugal [1]). No dia 3 tiveram lugar sessões de trabalho sobre a história da Medicina (com o foco na medicina árabe). E realizou-se uma sessão na Sala dos Capelos sobre "A medicina e os médicos na expansão mundial dos Portugueses", a cargo do Professor de Medicina da Universidade de Lisboa Ricardo Jorge. Finalmente, no dia 4 houve uma outra sessão plenária, da responsabilidade do Professor Comandante Fontoura da Costa, sobre A ciência náutica dos portugueses na época dos Descobrimentos. As excursões incluíram, para além de visita aos principais monumentos da cidade, uma visita ao Buçaco.

 Em jeito de conclusão, o secretário da secção de Lisboa do grupo português da História das Ciências Arlindo Camilo Monteiro (um médico interessado pela história da arte) escreveu no Prefácio das Actas, publicadas em 1936, nas quais o retrato do Presidente Carmona, em traje de gala, surge logo a abrir:

  Evocando a Coimbra dos velhos tempos, com tanto mais entusiasmo quanto a contemporânea nos parecia em grande parte ausente ou, pelo menos, em férias, o nosso pensamento dirigia-se para os poetas, oradores, escritores e filósofos, entre os quais aqueles que fizeram florir uma filosofia perpetuada sob a designação de Filosofia Conimbricensis, assim como aos espíritos particularmente devotados às ciências experimentais e às artes liberais. Diante da Minerva portuguesa, sonhámos que seria desejável que ela pudesse animar as gerações futuras na tarefa, sem dúvida muito complexa, mas não menos meritória, de estabelecer, com sinceridade e sob todos os pontos de vista, o balanço da sua influência espiritual e social no curso dos tempos.

 O Professor Joaquim de Carvalho foi, portanto, um dos principais animadores do Congresso. Nele apresentou uma comunicação, que consta das referidas Actas, sobre Jacob de Castro Sarmento e a introdução das concepções de Newton em Portugal. Recorde-se que Castro Sarmento propôs, embora sem a devida concretização, a tradução de latim para português das obras do filósofo Francis Bacon em Portugal e foi o primeiro a publicar uma tradução comentada de um texto do físico Isaac Newton (tinham passado dez anos após a morte de Newton). 

Começando por invocar a figura de Joaquim de Carvalho pretendemos aqui falar da necessidade de interdisciplinaridade, da ligação entre as disciplinas, que essa ligação proporciona, referindo em particular o caso da História das Ciências e alguns dos seus cultivadores em Coimbra. A História das Ciências é um lugar onde o diálogo e a convergência entre as ciências e as letras, áreas tradicionalmente separadas (na Universidade de Coimbra cultivadas em Faculdades próximas fisicamente, mas demasiadas vezes afastadas academicamente), são particularmente propícios. A história é um ramo das Ciências Sociais. A história das ciências ditas “duras”, como as tradicionalmente chamadas Ciências Exactas (Matemática, Física e Química), as Ciências Naturais (Biologia e Geologia), ou mesmo ciências menos “duras”, como as Ciências da Saúde (Medicina e Farmácia), exige o diálogo interdisciplinar entre historiadores e cientistas das referidas disciplinas. Se, por vezes, é o historiador que se torna historiador de ciência nas mais das vezes é o cientista que se torna historiador pelo gosto do conhecimento do passado da sua disciplina, que de resto lhe oferece um melhor conhecimento da sua ciência e, portanto, uma melhor preparação para o seu cultivo. A ciência é acumulação e, para se perceber melhor o método da ciência, não há como olhar para o trabalho de acumulação de conceitos, teorias e experiências, devidamente peneirados pela crítica, que foi efectuado no passado. 

Esse diálogo nem sempre é fácil pois, apesar da muito justificável designação unificadora de “ciências”, as Ciências Sociais, as Ciências Exactas, as Ciências Naturais e as Ciências da Saúde e perseguem objectivos distintos e têm metodologias próprias. Divergem também na especificidade da linguagem que utilizam, que no caso das ciências mais “duras” pode ser bastante hermética para quem não possuir o domínio da Matemática. Ora, para se conhecer a ciência do passado (que deve ser vista, ou melhor revista, mais com os olhos do passado do que com os olhos do presente), tem necessariamente de se conhecer os objectivos, as metodologias e as linguagens das ciências.

 Apresentamos aqui três casos exemplares (são, diga-se desde já, casos raros) que mostram a busca da unidade das ciências no século XX na Universidade de Coimbra: as obras do já referido Joaquim de Carvalho (1892-1958), professor de Filosofia que se interessou pela História da Ciência em Portugal, Luís de Albuquerque (1917-1992), professor de Matemática que se interessou pela História da Ciência em Portugal, muito em particular a História da Náutica, e Rómulo de Carvalho (1906-1996), que, sem ter sido professor universitário, foi um dos maiores polímatos do século transacto, com uma obra extraordinária no ensino da Física e da Química e na História da Ciência em Portugal, em particular do século XVIII, e na Poesia. Em suma e não dizendo nada de novo: para a História da Ciência o concurso dos especialistas de cada disciplina é imprescindível.

 Joaquim de Carvalho

 Nascido na Figueira da Foz, Joaquim de Carvalho licenciou-se em Direito e Letras, tendo adquirido formação específica na área da Filosofia, embora estivesse próximo da História da Ciência (tinha publicado a sua tese de doutoramento em Coimbra em 1916 sobre António de Gouveia e o Aristotelismo). No quadro da História da Ciência, focou em particular três dos maiores nomes da ciência nacional: Pedro Nunes, o já referido Jacob de Castro Sarmento e João Jacinto Magalhães, o primeiro matemático, expoente do quinhentismo português e os outros dois, um médico e outro instrumentista, insignes figuras do século das Luzes. Carvalho percebeu a relevância desses dois períodos da História da Ciência em Portugal e contribuiu para a sua ênfase: por um lado, Pedro Nunes, que foi contemporâneo de outras grandes figuras da ciência mundial como os médicos Garcia da Orta, Amato Lusitano e Francisco Sanches e o geofísico (para adoptar a nomenclatura de hoje) e homem de Estado D. João de Castro, e, por outro lado, dois “estrangeirados”, que contribuíram à distância para o progresso nacional no Iluminismo. O texto sobre Sarmento encontra-se republicado no volume V das suas Obras Completas [3], saídas do prelo da Fundação Calouste Gulbenkian, juntamente com outros estudos de História da Ciência, a maior parte dos quais sobre Pedro Nunes (Joaquim de Carvalho foi o principal impulsionador da publicação, que não chegou ao seu termo devido ao seu falecimento, da Obra de Pedro Nunes, a cargo da Academia das Ciências de Lisboa [4]) e a sua obra, mas também sobre Castro Sarmento e Jacinto Magalhães. Nesse mesmo volume V, mostrando a sua enorme polivalência e erudição, estão reunidos os seus estudos de História e Crítica Literária que abrangem vários autores, de Frei Heitor Pinto a Teixeira de Pascoaes, passando por Uriel da Costa, Antero de Quental e os seus colegas na Faculdade de Letras de Coimbra Carolina Michaëlis de Vasconcelos e Eugénio de Castro. Carvalho ficou, além do mais, conhecido como director da Imprensa da Universidade de Coimbra, lugar que ocupou a partir de 1921 e que só foi interrompido pelo governo de António de Oliveira Salazarem 30 de junho de 1934, precisamente o ano do Congresso, por ver naquela editora uma fonte de contestação política. Algumas das suas obras, publicadas pela Fundação Gulbenkian em forma impressa, têm acesso online no sítio [5].

  A sua posição sobre a ampla visão que ele entendia necessária ao espírito humano talvez ressalte desta frase que proferiu em 1932 no final de um discurso na Academia de Ciências de Lisboa, na inauguração do Instituto de Altos Estudos (a Academia de Lisboa tinha convidado o professor de Coimbra para ocupar a cátedra de História da Ciência) [3]:

O homem que apenas explica cientificamente é uma determinação limitada da natureza humana, assim como o é o homem que apenas se move no reino dos valores estéticos, éticos ou religiosos. O grande problema para nós, hoje, é um problema de integração e não de exclusão, e portanto o homem ideal será aquele que substitua a visão unilateral pela visão integral, e se situe numa atitude de compreensão e de vida tal, que realizando um outro tipo humano, demandando com igual intensidade e fervor o conhecimento que explica e o conhecimento que salva, a ambos afinal contenha e supere.

O humanista e historiador do humanismo português José de Pina Martins, membro da Academia das Ciências e grande bibliófilo, diz no seu prefácio a essa obra [3]:

 Só quem não conhecesse Joaquim de Carvalho poderia admirar-se da mestria com que tratava com igual competência problemas de filosofia, de crítica literária, de história da ciência e mesmo de bibliofilia. 

 Luís Albuquerque

 O Professor Luís de Albuquerque foi outro extraordinário homem de cultura que marcou o nosso século XX, juntando de forma rara as ciências e das letras. Natural de Lisboa, estudou Matemática e Engenharia Geográfica na Universidade de Coimbra, tendo-se doutorado em 1959 com uma tese intitulada Sobre a Teoria da Aproximação Funcional. Só mais tarde se interessou pela História das Ciências e das Técnicas, muito em particular pela História da Náutica, na qual tão importante foi o contributo dos navegadores portugueses dos séculos XV e XVI. Colaborou com o historiador Armando Cortesão (de origem engenheiro agrónomo) em Coimbra num gabinete de estudos e em cursos sobre cartografia antiga. A sua excelente bagagem matemática permitiu-lhe lidar com grande à vontade com questões complexas, de natureza científica, que colocariam sérias dificuldades a historiadores de formação tradicional. Luís Albuquerque, professor catedrático na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra desde 1966, foi um autodidacta em história: chegou a um lugar cimeiro nessa área graças à sua enorme capacidade intelectual e a décadas de estudos em História. Não admira por isso que a Universidade de Lisboa, em cuja Faculdade de Letras ensinou, lhe tenha atribuído em 1985 o grau de Doutor honoris causa em História.

 Luís de Albuquerque não só desenvolveu a subdisciplina da História da Ciência e da Tecnologia, na senda de outros historiadores da náutica como o já referido comandante Fontoura da Costa, como procedeu a um notável trabalho de divulgação da gesta marítima portuguesa para o grande público. Refiram-se, em particular, os livros Os Descobrimentos Portugueses [6-7], dois com o mesmo título destinados a públicos díspares, e Navegadores, Viajantes e Aventureiros Portugueses. Sécs. XV-XVI [8], para além da edição de obras de referência como a Biblioteca da Expansão Portugueses [9], Portugal no Mundo [10] e Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses [11]. Apesar dessa muito bem sucedida deriva para a História, que lhe passou a ocupar a maior parte do tempo, nunca perdeu a ligação às suas origens. Assim, contribuiu para a formação de um grupo em Álgebra em Coimbra e quis dar a sua última lição, em 1987, quando se jubilou, sobre um tema de Matemática. Ocupou lugares de relevo na academia como os de Vice-Reitor de 1978 a 1982 e de Director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra de 1978 até à data da sua jubilação. Foi um cidadão muito empenhado na cultura, tendo sido um dos protagonistas maiores na redacção da revista Vértice. Politicamente, para além da expressão das suas ideias de oposição e da grande abertura às dos outros, limitou-se a ser, por pouco tempo, governador civil de Coimbra após o 25 de Abril de 1974.

 O seu liber amicorum, volume de homenagem para o qual contribuíram numerosos colegas e amigos, Luís de Albuquerque Historiador e matemático [11] inclui, para além da sua extensa bibliografia, depoimentos de colegas e amigos (ver também [13-14]). Transcrevemos do depoimento do Professor de Matemática da Universidade de Lisboa J. J. Dionísio esta citação do Prof. Albuquerque sobre o ensino da História da Matemática, que ele ministrou em Coimbra:

 “Para isso [ensinar aquela disciplina] é necessário que a uma sólida e ampla formação de matemático o professor alie um bom conhecimento de história das ideias e das mentalidades, devendo ainda estar bem apetrechado na área das línguas.”

 O Prof. Albuquerque tentou até ensinar ao mesmo tempo alemão (ele tinha estado na Alemanha) e topologia: poder-se-á imaginar uma maneira mais original de juntar letras e ciências?

 Rómulo de Carvalho

Por último, Rómulo de Carvalho, nascido em Lisboa, foi professor de Físico-Química, com formação adquirida primeiro na Universidade de Lisboa e depois na do Porto, onde concluiu os estudos, tendo-se revelado, para além de pedagogo e historiador da pedagogia em Portugal, um notável historiador e um incansável divulgador de ciência (ver os dois volumes saídos na Universidade de Évora [15-16]) . Tal como Joaquim de Carvalho, Rómulo de Carvalho interessou-se pelo segundo período de ouro da ciência portuguesa: o Iluminismo, um tempo onde foi preponderante a acção dos sócios portugueses da Royal Society de Londres (muitos deles “estrangeirados” como o judeu Jacob de Castro Sarmento, mas também os oratorianos Teodoro de Almeida e João Chevalier e o originalmente crúzio João Jacinto Magalhães foram sócios dessa instituição [17]). Tendo a actividade científica desses “modernos” (assim se diziam os adeptos da física de Galileu e Newton) atingido um pico no final do reinado de D. João V (que, recorde-se, faleceu em 1750), ela sofreu um sobressalto com a perseguição aos jesuítas e aos oratorianos (quanto à perseguição aos judeus ela já vinha do tempo de D. Manuel I) após o grande terramoto de Lisboa de 1755 e a expulsão dos jesuítas em 1759, mas essa actividade acabou por encontrar acolhimento na Reforma da Universidade de Coimbra, em 1772, designadamente com a criação do Gabinete de Física, e, já depois da “Viradeira”, na inauguração da Academia de Ciências de Lisboa, em 1779. Vários professores de Coimbra de Ciências foram sócios fundadores dessa Academia, o que significa que, apesar do nome, o seu carácter nacional foi imediatamente reconhecido.

 Para estudar esse período Rómulo foi um frequentador assíduo quer do antigo Gabinete de Física de Coimbra quer da Biblioteca Geral e do Arquivo da Universidade quando era professor no Liceu Normal de D. João III (hoje Escola Secundária José Falcão), em Coimbra. Mais tarde foi, durante muitos anos, frequentador assíduo da Biblioteca e Museu da Academia de Ciências, quando era professor no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa. Como na época os estudos sobre os Descobrimentos já estavam em grande parte lançados, preferiu focar a sua atenção sobre esse outro grande período da ciência em Portugal, que foi a recepção plena do newtonianismo, que é como quem diz, da ciência moderna. É talvez o nosso maior historiador da Ciência Iluminista, que divulgou nos pequenos volumes da colecção Biblioteca Breve do Instituto de Cultura e História Portuguesa ([18-20], hoje todos em acesso livre on line [21]) sobre a Astronomia, Física Experimental e História Natural no século XVIII.

Apesar de bem acolhido no Laboratório de Física pelo seu Director João de Almeida Santos, Rómulo de Carvalho não foi muito feliz nos contactos que manteve com a Universidade com vista à publicação de uma sua obra sobre a história do estabelecimento da Física Experimental com a fundação do Gabinete de Física pelo Marquês de Pombal, equipado em boa parte com máquinas vindas dos oratorianos de Lisboa [22-23]. Nas suas Memórias [24], publicadas pela Fundação Gulbenkian, conta como foram atribuladas as suas relações com José Sebastião da Silva Dias, Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (licenciado em Direito, Silva Dias começou em 1957 a dar aulas de História da Cultura nessa Faculdade, sucedendo de certo modo a Joaquim de Carvalho): o grosso volume sobre o Gabinete de Física pombalino (esse Gabinete é, desde 2014, “Sítio Histórico da Física” na Europa, por escolha da Sociedade Europeia de Física [25]) acabou por ver a sua publicação protelada para sair finalmente do prelo pela Biblioteca Geral, no tempo em que era seu director Luís de Albuquerque, mas apenas quinze anos após a sua redacção e uma paragem de quase quatro anos na tipografia. A Universidade de Évora, ao conceder a Rómulo de Carvalho o grau de doutor honoris causa em 1995, prestou-lhe uma homenagem que, vinda do mundo universitário, foi tão justa quanto tardia. Em Coimbra, o nome do Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra [26], moderno centro de recursos em cultura científica integrado no Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra, também lhe presta homenagem. Como curiosidade, acrescente-se que Rómulo de Carvalho veio a ocupar em 1992 o lugar de Luís de Albuquerque na Academia das Ciências, tendo-lhe feito o devido elogio.

Rómulo de Carvalho foi, como é bem sabido, o poeta António Gedeão. Haveria para ele uma dicotomia entre ciência e poesia? Respondeu esse homem das “duas culturas” [27] numa entrevista a Christopher Auretta e António Nunes dos Santos, publicada na Gazeta de Física [28]) :

RC/AG – (…) Há alguma dicotomia? Não há nenhuma! A pessoa encara a poesia como encara a ciência como encara a arte, como encara qualquer outra coisa, não há incompatibilidade.
 CA - Convivem pacificamente?
RC/AG - Com certeza.
 CA - Enriquecem-se?
RC/AG - Exactamente. Não há nenhum motivo para me dizerem: "Então, você que é cientista, também faz poesia? Não tem nada uma coisa com a outra. Pois é, faço e também faço móveis!"

 Referências sobre a vida e a obra de Rómulo de Carvalho / António Gedeão foram as exposições que o Museu de Ciência da Universidade de Lisboa e a Biblioteca Nacional de Portugal lhe fizeram postumamente, ambas com bons catálogos [29-30].

Conclusões

O que têm em comum os Professores Joaquim de Carvalho, Luís de Albuquerque e Rómulo de Carvalho? Pois, além de uma imensa capacidade intelectual, uma omnívora voragem pelos conhecimentos históricos, que ia sendo satisfeita pela consulta e leitura dos manuscritos e cimélios (todos foram distintos bibliófilos). E, sobretudo, todos eles prezaram o cruzamento entre as várias áreas do vasto saber humano. Joaquim de Carvalho situa-se entre a filosofia e a ciência (o ramo da filosofia que dá pelo nome de epistemologia não é mais do que o enquadramento da ciência na filosofia), Luís de Albuquerque entre a Matemática e a História (a navegação astronómica, que desempenhou um papel essencial na descoberta do mundo nos séculos XV e XVI, não é mais afinal do que um ramo da Matemática Aplicada) e Rómulo de Carvalho entre a ciência, a história, a pedagogia, a divulgação e a poesia (abrindo-se num espectro ainda maior do que os outros seus dois contemporâneos). Todos eles contribuíram para a História da Ciência na Universidade de Coimbra, que é em grande parte a História da Ciência em Portugal (ver os volumes recentes da Imprensa da Universidade de Coimbra [31-32] e a obra de divulgação histórico-científica [33], que de certo modo oferecem resposta ao repto do prefácio às Actas do III Congresso Internacional de História das Ciências, transcrito no início). Todos eles pugnaram pela difusão da ciência sob a forma privilegiada do livro, Joaquim de Carvalho não só como autor mas também como editor da Imprensa da Universidade, e Luís de Albuquerque e Rómulo de Carvalho como autores de extensíssimas bibliografias.

 E há mais em comum: os três foram excepcionais na defesa da ciência. no século XX português, que, apesar de ter beneficiado dos enormes avanços nas ciências e tecnologias feitos no mundo, só a partir de 1974 viu reconhecido o papel da ciência e da tecnologia no desenvolvimento nacional. E os três sempre pugnaram pela unidade das ciências. Podem as ciências ser múltiplas e díspares, mas das suas ligações e do reconhecimento da sua unidade (veja-se, como referência para a descrição dessa unidade, a obra de Olga Pombo, professora de Filosofia das Ciências na Universidade de Lisboa, em particular [34]) resulta sempre compreensão acrescida. Num tempo de enorme fragmentação, podendo mesmo dizer-se pulverização, disciplinar, a unidade das ciências pode trazer esclarecimento adicional. A visão histórica ajuda: Se os Descobrimentos foram o prelúdio da Revolução Científica e o Iluminismo, época em que triunfou a ciência de Galileu e Newton, foi marcado pela publicação da Enciclopédia de d’Alembert e Diderot e pelo diálogo interdisciplinar nas academias então formadas, o tempo de hoje, com o cultivo da História das Ciências, pode beneficiar sobremaneira com a revisitação intelectual desse passado.

 O Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra, que reúne todos os centros de Investigação da Universidade de Coimbra, pode ser o lugar onde esse cultivo se concretize ou pelo menos lugar que fomente esse cultivo, sendo decerto um bom auspício a recente criação, numa iniciativa conjunta das Universidades de Coimbra e Aveiro, de um programa doutoral em “História das Ciências e Educação Científica”. Que as figuras de Joaquim de Carvalho, Luís de Albuquerque e Rómulo de Carvalho possam a este respeito ser inspiradoras.

 REFERÊNCIAS

 [1] George Sarton, The history of science and the new humanism” New York: Henry Holt and Co, 1931. Dedicatória: To Professor Alberto Pessoa in remembrance of the happy days of Coimbra and Lisboa.
 [2] Vários, III Congrès International d’Histoire des Sciences. Actes, Conferences et Communications, Lisboa, 1936.
 [3] Joaquim de Carvalho, Obra Completa, Vol. V, História e Crítica Literárias e História da Ciência, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1987.
 [4] Obras / Pedro Nunes. – Nova edição, revista e anotada por uma Comissão de Sócios da Academia das Ciências. Lisboa: Imprensa Nacional, 1940-1960, 4 vols.
 [5] http://joaquimdecarvalho.org/ (acesso em 8 de Setembro de 2014).
 [6] Luís de Albuquerque, Os Descobrimentos Portugueses. Lisboa: Alfa e Selecções do Reader’s Digest, 1985.
 [7] Luís de Albuquerque (com Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada), Os Descobrimentos Portugueses, 2 vols., Lisboa: Caminho, 1991-1992.
 [8] Luís de Albuquerque, Navegadores, Viajantes e Aventureiros Portugueses. Sécs. XV-XVI, Lisboa: Círculo de Leitores e Caminho, 1987, 2 vols.
 [9] Luís de Albuquerque (direcção), Biblioteca da Expansão Portugueses, Lisboa: Alfa, 1989. 50 vols.
 [10] Luís de Albuquerque (direcção), Portugal no Mundo, Lisboa: Alfa, 1989, 3 vols.
 [11] Luís de Albuquerque (direcção) e Francisco Contente Domingues (coordenação), Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses Lisboa: Círculo de Leitores e Caminho, 1994, 2 vols.
 [12] Vários: Luís de Albuquerque. Historiador e Matemático, Homenagem, de Amizade a um Homem de Ciência, Lisboa: Chaves Ferreira – Publicações, 1998.
 [13] Alfredo Pinheiro Marques, Luís de Albuquerque na historiografia portuguesa: a serenidade e a convicção. Coimbra e Figueira da Foz: Centro de Estudos do Mar, 1998.
 [14] Vários, Testemunhos. Luís de Albuquerque, Coimbra: Ordem dos Engenheiros – Região Centro, 2007.
 [15] Rómulo de Carvalho, Actividades científicas em Portugal no século XVIII. Évora: Universidade de Évora, 1996.
 [16] Rómulo de Carvalho, Colectânea de estudos históricos (1953-1994): cultura e actividades científicas em Portugal. Évora: Universidade de Évora, 1997.
 [17] Carlos Fiolhais (coordenação), Sócios Portugueses da Royal Society / Portuguese Fellows of the Royal Society, Coimbra: Universidade de Coimbra, 2011.
[18] Rómulo de Carvalho, A Física Experimental em Portugal no Século XVIII. Lisboa: Instituto de Cultura e História Portuguesa, 1982.
[19] Rómulo de Carvalho, A Astronomia em Portugal no Século XVIII. Lisboa: Instituto de Cultura e História Portuguesa, 1985.
[20] Rómulo de Carvalho, A História Natural em Portugal no Século XVIII. Lisboa: Instituto de Cultura e História Portuguesa, 1987.
[21] Biblioteca Virtual Camões http://cvc.instituto-camoes.pt/ (acesso em 8 de Setembro de 2014) [22] Rómulo de Carvalho, História do Gabinete de Física pombalino da Universidade de Coimbra: desde a sua fundação (1772) até ao jubileu do professor italiano Giovanni Antonio Dalla Bella (1790), Coimbra: Universidade de Coimbra, 1987.
 [23] Carlos Fiolhais, Os Livros que Rómulo de Carvalho nos deixou, in Actas do Encontro Internacional António Gedeão & Rómulo de Carvalho, Novos Poemas para o Homem Novo, Célia Vieira e Isabel Rio Novo (organização), Maia: Edições ISMAI, 2008, pp. 35-42
 [24] Rómulo de Carvalho, Memórias, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010
 [25] http://www.uc.pt/colaboradores/destaques/20140901 (acesso em 8 de Setembro de 2014)
 [26] http://nautilus.fis.uc.pt/rc/?page_id=87 (acesso em 8 de Setembro de 2014)
 [27] C. P. Snow, As Duas Culturas, Lisboa: Presença: 1996. .
[28] http://nautilus.fis.uc.pt/spf/velharia/gazeta/93/GF-16_1.93/02.html (acesso em 8 de Setembro de 2014)
 [29] Vários, “António é o meu nome”, Rómulo de Carvalho, Lisboa: Biblioteca Nacional, 2006, e sítio “António é o meu nome”, Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal http://purl.pt/12157/1/ (acesso em 8 de Setembro de 2014)
 [30] Luísa Corte-Real e Marta Lourenço (direcção), Pedra Filosofal. Rómulo de Carvalho / António Gedeão, Lisboa: Museu de Ciência da Universidade de Lisboa, 2001.
 [31] Carlos Fiolhais, Décio Martins e Carlota Simões (coordenação), História da Ciência Luso-Brasileira: Coimbra entre Portugal e o Brasil, Coimbra: Imprensa da Universidade, 2013.
 [32] Carlos Fiolhais, Décio Martins e Carlota Simões (coordenação), História da Ciência na Universidade de Coimbra (1772-1933), Coimbra: Imprensa da Universidade, 2013.
 [33] Carlos Fiolhais, História da Ciência em Portugal, Lisboa: Arranha Céus, 2013.
 [34] Olga Pombo, Unidade da Ciência. Programas, Figuras e Metáforas, Lisboa: Duarte Reis, 2006.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

SINAIS PREOCUPANTES NA EDUCAÇÃO



Artigo de  Jorge Buescu, Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática, a sair na Gazeta de Matemática. Ler aqui. Destaco o final:

"Curricula escolares revistos com grande precipitação e sem discussão científica. Manuais escolares sem controlo de qualidade através de Certificação. Duas razões para a SPM encarar com grande apreensão o futuro próximo do ensino da Matemática em Portugal: não só fica instalado o caos no sistema a curto prazo como estas medidas podem assinalar, a médio prazo, o início de uma perigosa deriva facilitista na Educação."

POLITÉCNICOS INSISTEM NA CRIAÇÃO DE DOUTORAMENTOS, E NÃO SÓ!



Com a devida vénia, transcrevo do “Jornal I” (22/11/2016), a  notícia intitulada “Superior. Marcelo sai em defesa dos politécnicos”, da autoria de Ana Patronilho:

“Numa altura em que se debate a transformação e o futuro dos politécnicos no ensino superior, o Presidente da República teceu esta terça-feira vários elogios a estas instituições.

Para Marcelo Rebelo de Sousa, “o país seria diferente” e “não se consegue sequer imaginar” como seria Portugal sem os politécnicos. O Chefe de Estado frisou ainda que os politécnicos têm um “papel único” no combate  ao desemprego e à desertificação do interior país.

Marcelo Rebelo de Sousa - que confessa ter um sonho de dar aulas num politécnico - lembra ainda que estas instituições contribuíram para a democratização do ensino superior. “Não há coesão territorial sem coesão social e foram os politécnicos que favoreceram a circulação social, possibilitando o acesso ao ensino superior de um maior número de pessoas, ajudando na sua progressão social, comunitária e pessoal”.

As declarações do Chefe de Estado foram feitas para uma plateia de professores e alunos do superior durante um seminário sobre “o contributo dos politécnicos para o desenvolvimento do país”, que decorreu na Escola Superior de Tecnologia da Saúde, em Lisboa, e que contou com a presença de vários ex-ministros da Educação, como Eduardo Marçal Grilo.

O encontro e o debate tiveram como pano de fundo as reivindicações dos politécnicos para oferecerem cursos de doutoramentos e para alterarem o seu estatuto para Universidades de Ciências Aplicadas (University of Applied Science), acompanhando uma tendência que dizem ser europeia.

Em carta enviada à tutela, em outubro, os presidentes dos conselhos gerais dos politécnicos defendiam que a impossibilidade terem doutoramentos “é uma penalização” e constitui “uma limitação ao serviço que têm capacidade de prestar ao país e às regiões em que se inserem, bem como para o seu próprio desenvolvimento institucional”.

Estas reclamações já antigas vieram unir novamente os politécnicos, depois de Lisboa, Porto e Coimbra terem entrado em rutura com as restantes 12 instituições, abandonando o órgão máximo de representação o Conselho Coordenador dos Politécnicos (CCISP).

O seminário procurou ainda analisar a duplicação dos cursos em funcionamento nas universidades e nos politécnicos e a qualificação do corpo docente”. 

Por desconhecimento presencial da reunião noticiada, começo por fazer referência à transcrição feita pelo Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas” (18/07/2016) do meu artigo saído no “Público” (11/07/2016), intitulado “Ensino Superior e Doutoramentos”;  e, depois,  tecer breves considerações motivadas pelas minhas muitas tomadas de posição contra esta pretensa igualdade de direitos sem contrapartida de deveres (por exemplo, o curso de formação de professores do 2.º ciclo do ensino básico habilita os seus diplomados a ministrarem as disciplinas de Matemática e Ciências da natureza enquanto que os respectivos cursos universitários apenas habilitam a dar aulas de Matemática ou de Ciências da Natureza). Aliás, os latinos utilizaram uma máxima que disso mesmo dá conta: Suum cuique tribuere!

Não enjeitando os versos de António Gedeão: “Onde Sancho vê moinhos / D. Quixote vê gigantes. / Vê moinhos? São moinhos. / Vê gigantes ? São gigantes”, pela análise do texto supracitado ficou-me o elogio merecido do papel desempenhado actualmente pelos institutos politécnicos não me parecendo que ficasse escrito branco no preto a anuência do Chefe de Estado, Professor Marcelo Rebelo de Sousa, às pretensões dos institutos politécnicos em atribuírem doutoramentos ou à mudança do seu estatuto de institutos politécnicos para “Universidades de Ciências Aplicadas”, para acompanhar uma tendência que os politécnicos dizem ser europeia. E aqui, sinto-me tentado a evocar dois ditados portugueses:. “Em Roma sê romano” e “Cada terra como  seu uso, cada roca com o seu fuso”.

Aliás, este assunto encontra-se encerrado pela tomada de posição pública ministerial em manter a desaprovação da atribuição de doutoramentos por parte do ensino politécnico. Continuar a insistir em tese diferente por parte dos politécnicos parece-me comparável, como costumo dizer, a continuar a serrar serradura!